Despedida

NOVA YORK - Não existe altruísmo e sim o autointeresse iluminado - adágios como este eram cunhados com naturalidade por Anne Margolis, minha grande amiga e meu norte neste hemisfério. Há duas semanas, Anne decidiu nos deixar com a rapidez com que tomava outras decisões, como abandonar a cerâmica, a escultura ou a poesia. Digo decidiu porque ela não estava acometida por nenhum mal agudo. Anne expirou e deixou um rastro de perplexidade entre os que tiveram contato, mesmo o mais breve, com sua incandescência.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h06

No começo do ano passado, Anne havia se queixado para mim: "Estamos vivendo demais". Ela protestava contra a medicina que estende a vida, mesmo sem qualidade de vida. Foi um pouco depois de ela ter se desligado do programa de docentes voluntários do excepcional Museu Hirshhorn de Washington, especializado em esculturas. Para chegar ao museu e conduzir tours de visitantes, Anne precisava dirigir em um dia por 220 quilômetros, ida e volta. Aos 87 anos. A estrada era traiçoeira em alguns trechos e ela se curvou, indignada, ao peso da idade.

Mas, aos 88, ela me contou, exultando em sua traquinagem, que tinha acelerado para se livrar da polícia, depois de levar uma batida na traseira de seu carro híbrido, voltando de uma sessão de cinema a 100 quilômetros de casa, tarde da noite. "Eu não tinha a carteira de motorista comigo, o que você queria que eu fizesse?" Eu não tinha a resposta pronta comigo.

Quando a conheci, no começo da década de 90, Anne foi a primeira mulher com mais de 60 anos que me mostrou um novo universo de engajamento na vida na terceira idade, um termo que ela haveria de detestar.

Sua energia e curiosidade, seu desassombro diante de guerras ou discussões dentro dos edifícios eram um poderoso argumento para aguçar meus sentidos para o presente fugaz.

"Vamos?" Não era preciso completar a frase definindo o destino - ela já estava de malas prontas.

Anne cresceu em Baltimore sem nunca ter ouvido jazz, mas conta jazzistas nova-iorquinos entre seus fãs inconsoláveis. Saía de uma matinê de teatro em debate intenso com o Arnaldo Jabor, que mal conhecia e cuja estatura no país que enfeitiçou seu filho favorito não a impressionava.

Certa vez, minha filha chegou da escola naquele mau humor atávico da pré-adolescência, trazendo um dever de casa que incluía analisar um conto de literatura russa. Tomamos o trem para visitar Anne, que, na época, morava a duas horas de Nova York. "Deixa comigo", disparou Anne, como quem quebra ovos para fazer um omelete. "Vou lhe dar a dica para a alma russa. Há uma vila. Há uma rebelião. Há um banho de sangue com centenas de mortos. Nosso nobre herói nem pisca. No dia seguinte, ele vai passear de carruagem. A roda quebra. Ele quer se suicidar."

O senso prático se estendia à mortalidade. Amante de gatos, há dois anos, ela havia adotado um par, num abrigo que prometia recebê-los de volta, quando ela não pudesse mais tomar conta dos bichos. Batizou as duas fêmeas de Ginger e Fred, não necessariamente por causa daquele casal de Hollywood, mas pelo filme de Federico Fellini, com Marcello Mastroianni e Giulietta Masina vivendo dois melancólicos imitadores de Ginger Rogers e Fred Astaire. Anne, que não perdia episódios do programa do comediante Jon Stewart na TV, sabia que a ironia não devia sufocar a ternura.

Sua generosidade não consistia em fazer sacrifícios dos quais desconfiava, como escaldada descendente de católicos irlandeses, mas em considerar cada amigo ou amiga cúmplice de aventura ou descoberta. Depois que entrevistei Stephen Greenblatt, no ano passado, para o Sabático, coloquei seu livro A Virada, O Nascimento do Mundo Moderno no correio para Anne. Telefonei, perguntando sua opinião. "Já estou lendo pela segunda vez, é irresistível", ela respondeu, encantada com a narrativa da redescoberta de um poema.

Quando a idade restringiu seus movimentos e reprimiu seu apetite por museus e galerias, teatro e viagens, natação e uísques single malt ao entardecer, Anne, pouco antes de completar 89 anos, deu um basta, na forma de um episódio cardíaco.

Sem a pompa da literatura russa, com a glória de quem nunca abriu mão da carruagem da imaginação.

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