Desilusão com a Cuba de Fidel inspira Roberto Ampuero

WILSON ALVES-BEZERRA

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2012 | 03h12

F

azia tempo que um livro não me absorvia e emocionava tanto como essa descrição tão honesta de uma ilusão que compartilhamos com a Revolução Cubana. O depoimento de Mario Vargas Llosa, incluído na edição brasileira de Nossos Anos Verde-Oliva, de Roberto Ampuero, é significativo: a escrita do chileno se aproxima do procedimento do qual se vale o próprio Nobel peruano em seu mais recente romance, O Sonho do Celta. Em ambos, a reconstrução histórica é apresentada pelo olhar de um personagem-testemunha.

Roberto Ampuero de fato se exilou do Chile no governo Pinochet e foi para Cuba, onde se casou com a filha de um alto funcionário de Fidel. Contemporâneo de Bolaño, ele não chega a surpreender no ponto de vista e tampouco na forma, mas ainda assim tem um trunfo. Na minuciosa construção do personagem Ulises Cienfuegos reside o achado da obra: inspirado num fiscal do governo Fidel e sogro do protagonista, ele teria sido o responsável pela morte de mais de uma centena de opositores, em julgamentos sumários.

Pois o personagem real, Fernando Flores Ibarra (1930-2012), o "Poça de Sangue", ex-sogro de Ampuero, veio a público em 2001, logo após o surgimento do livro, e assumiu as acusações nele contidas: "Essas mortes não tiraram meu sono", afirmou. A declaração, que causou furor à época, foi mais uma mostra acabada de que a literatura, mesmo a menos transgressora, como é o caso, tem o poder de acender o debate.

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