instituto John Graz
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Designers de móveis também foram influenciados pela Semana de 22

Toques modernistas de John Graz, Gregori Warchavchik e Flávio de Carvalho em suas obras mantêm influências até hoje

Marcelo Gomes Lima, Especial para o Estadão

15 de fevereiro de 2022 | 20h00

Marco definitivo no processo de afirmação da cultura brasileira, a Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo em fevereiro de 2022, sinalizou, antes de tudo, um desejo latente de renovação. Idealizada por pintores, escultores, arquitetos, escritores e músicos, o desenho de mobiliário não fez parte de sua programação oficial. Ainda assim, também nos domínios do móvel – e, em particular, na produção de três personagens referenciais do período –, cedo seus reflexos se fizeram sentir. 

Amigo de Oswald de Andrade, o pintor suíço John Graz, um dos precursores do movimento Art Déco no Brasil, participou da semana das artes com sete de suas telas. Artista multifacetado – além de desenhar móveis, ele também se dedicou à decoração e à ilustração –, Graz se notabilizou por seus estudos a guache, que levavam a seus clientes uma visão completa e integrada de ambientes residenciais, incluindo, além do mobiliário, os acessórios e seus revestimentos. Tal qual hoje fazem nossos designers de interiores.

“Ele chegava ao móvel a partir de uma compreensão global de cada espaço, trabalhando formas simples, geométricas, muitas vezes assimétricas”, explica a designer e diretora criativa da Dpot Móveis, Baba Vacaro, que há cerca de duas décadas mergulhou nos arquivos pertencentes ao Instituto John Graz, para dele emergir com uma coleção completa de seus móveis. Peças criadas antes da emergência da indústria moveleira, que nunca chegaram a ser produzidos em série.

“Nosso principal desafio foi traduzir os desenhos de Graz, muitas vezes simples esboços, para a linguagem técnica”, afirma a designer, que, durante o processo, se viu diante de escolhas decisivas. “As ideias dele contemplavam o único, o exclusivo. Seus móveis tinham endereço certo e estavam, em sua grande maioria, diretamente ligados a seus projetos de interiores. Além disso, muitos deles apontavam para diversas possibilidades estéticas e construtivas”, conta.

Dentro de um processo que, segundo Baba, ainda está em pleno andamento, até o momento, foram cinco as peças editadas pela marca paulistana: um sofá, uma poltrona – com ou sem um apoio para os pés –, uma mesa e uma cadeira: “Penso que para além de sua importância histórica, a relevância dessa ação não está apenas em revelar a atualidade do mobiliário criado por ele. Mas, também, em possibilitar a convivência de um número maior de pessoas com sua obra. Para além do círculo museológico.” 

Considerado o primeiro arquiteto modernista em atuação no País, o ucraniano Gregori Warchavchik chega ao Brasil em 1923, no auge da agitação modernista. E começa a desenhar móveis, essencialmente, para equipar os espaços que projetava. Entre eles, a primeira obra de arquitetura reconhecidamente moderna implantada em território nacional: a célebre Casa Modernista da Rua Santa Cruz, em São Paulo. 

Desenhando a partir dos parâmetros elencados pela Bauhaus alemã – ainda que devidamente adaptados à realidade produtiva local –, seu mobiliário, construído com base em belas madeiras nativas, tem no geometrismo e em seu sutil apelo Art Déco, dois de seus pontos fortes. “São esses elementos que conferem a peças desenhadas há quase um século, uma beleza tão atemporal”, considera Lissa Carmona, CEO da Etel Design (etel.design), que detém os direitos de produção sobre o mobiliário assinado pelo designer.

Desenhado por Warchavchik em 1928 para compor os interiores da Casa Modernista, o carrinho de chá, hoje um dos best-sellers da marca paulistana, representa, segundo a empresária, um dos mais bem acabados exemplos do ideário estético do designer. “Ele contém todos os ingredientes capazes de transformar um móvel, um clássico. É elegante, sintético, livre de ornamentos. No meu entender, a peça que melhor demonstra o sentido de atemporalidade perseguido por ele”, considera Lissa. 

Irreverente, provocador, mas essencialmente movido pelo ideal modernista de romper com as convenções, o carioca Flávio de Carvalho, se forma em engenharia civil na Inglaterra, em 1922. Pouco tempo depois, se transfere para São Paulo, onde, além de trabalhar como arquiteto, começa a ter um contato mais estreito com os modernistas locais – Mário e Oswald de Andrade, entre outros, foram alguns dos modernistas de 22 retratados por ele em suas telas de inspiração surrealista. 

Ao lado de Warchavchik, considerado um dos pioneiros do Modernismo na arquitetura brasileira, Flávio costumava imprimir caráter transgressor a tudo o que fazia, da pintura ao desenho de mobiliário. Não satisfeito em radicalizar no projeto de sua casa na Fazenda Capuava, em Valinhos, no interior de São Paulo, o arquiteto se dedicou, igualmente, a desenhar todos os seus móveis. Dentre eles, a icônica poltrona FDC1, um móvel absolutamente inovador para sua época, com estrutura de ferro e tiras de couro aparentes. 

“Quando iniciamos a produção da FDC1, em 2010, a maior dificuldade que encontramos foi ter acesso a uma peça original para criar o desenho técnico. Flávio tinha manufaturado poucos exemplares para a Fazenda Capuava e eles não existiam mais. Assim, tivemos que recorrer a fotos de arquivos para nos aproximarmos do projeto”, explica Bénédict Halbronn, sócia- proprietária da Futon Company, que hoje detém os direitos de distribuição do móvel no Brasil.

No exterior, onde, a julgar por sua presença nos editoriais das revistas especializadas, a poltrona tem sido muito bem recebida, a tarefa fica a critério da francesa Objekto. “A forma redonda do encosto, sua inclinação, as tiras de couro pendendo soltas. Tudo remete à arte tribal, a uma máscara ou pintura indígena. Trata-se de um objeto, esteticamente e visualmente, no limite entre a arte e o design. Penso que ela sintetiza o design modernista brasileiro”, conclui Bénedict.

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