Design racional

A influência da Escola Superior da Forma de Ulm e da Bauhaus no desenvolvimento do design mundial pode ser atestada por meio de exposições e livros que prestam homenagem a dois mestres da área, o brasileiro Alexandre Wollner, ativo, aos 85 anos, e o alemão Jan Tschichold (1902-1974). Wollner, que foi aluno da Escola de Ulm (Hochschule für Gestaltung), criada por Max Bill, comemora 60 anos de carreira com uma exposição de novos trabalhos na Galeria Dan e uma retrospectiva com 120 obras suas no Museu de Arte Aplicada (Museum Angewandte Kunst) de Frankfurt (aberta até fevereiro). Além disso, assina o projeto gráfico do livro Concretos Paralelos: Construtivismo Britânico, Concretismo e Neocroncretismo Brasileiro. Tschichold, que revolucionou a tipografia moderna e conviveu com os mestres da Bauhaus, é lembrado numa luxuosa edição da Edusp (leia texto abaixo).

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h18

Conhecido pela identidade visual de bancos, indústrias e instituições culturais do Brasil - Itaú, Ultragaz e MAC - Wollner mostra na Dan Galeria a versão digital de trabalhos extraviados numa exposição em Zurique nos anos 1960, composições com formas triangulares que aumentam e diminuem de tamanho. São duas séries expostas, Constelações e Formulação, que recriam digitalmente obras datadas de 1956 em diante. Não por capricho revisionista. Wollner justifica a retomada como uma maneira de explorar novas possibilidades de sobreposição oferecidas pela impressão digital, "coisa que uma aquarela não daria conta", diz ele. "Não veria nunca a transparência limpa garantida pelo digital".

Ao contrário de Tschichold, que abjurou o cânone modernista ao se estabelecer na Inglaterra quando fugiu da Alemanha dominada pelos nazistas, retornando à composição clássica que rejeitava, Wollner, pioneiro no design racional, nunca repudiou sua formação concreta. Até hoje, ela é perceptível em trabalhos como a identidade visual da Editora É Realizações, para a qual desenhou recentemente também a coleção do filósofo René Girard, um arrebatador exemplo de concisão.

"Aprendi a coordenar os elementos desta e outras vidas", sintetiza Wollner. E ele não está falando de vidas passadas, como Shirley MacLaine. Refere-se à relações entre conhecimento analógico e digital, duas vidas em uma em se tratando do artista concreto. "Todo mundo olha, mas não vê", diz, explicando como criou o alfabeto para a identidade visual da marca Eucatex (de forros acústicos e chapas isolantes). Elementos tipográficos traçavam uma correspondência analógica com o aparelho auditivo, obedecendo à espiral do matemático italiano Fibonacci. O resultado é uma letra que lembra uma orelha humana. Simples, direto. E tremendamente sofisticado.

Wollner diz que sua passagem pela Escola de Ulm foi fundamental para que essa estética racionalista o acompanhasse ao Brasil quando voltou, em 1958, no auge das discussões entre concretos paulistas e cariocas (os últimos lançariam um ano depois o Manifesto Neoconcreto). Em 1963, ele criou a primeira instituição dedicada ao ensino do design no País, a Escola Superior de Desenho Industrial - Esdi. O radicalismo da Escola de Ulm era conhecido. Não se ensinava pintura ou escultura. Mavigner, colega de Wollner, pintava escondido. "Ele vedava o buraco da fechadura", lembra. Marcada pelo funcionalismo extremo e pelo rigor disciplinar (lá os alunos aprendiam filosofia, história da cultura, ergonomia e até física quântica), a escola alemã teve vida curta, mas Wollner se encarregou manter seus ideais vivos na Esdi.

"Aqui ainda se falava em design gráfico, quando o certo é design visual". E dá um exemplo - analógico: o logotipo da Cinemateca Brasileira, que o então presidente, Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977), viu como um símbolo fálico, conta Wollner, rindo. Dois rolos de filme e uma linha horizontal formam a identidade visual daquela que era, na época, a filmoteca do Museu de Arte Moderna. Foi lá que o jovem Alexandre entrou no mundo da arte. E nunca mais o abandonou.

Um exemplo é o livro que Wollner criou com as obras participantes de duas exposições simultâneas realizadas em 2012, na verdade, o catálogo das mostras da Dan Galeria e Centro Brasileiro Britânico, que relacionavam construtivistas brasileiros e ingleses. Wollner comparece com uma composição de 1950 e duas plottergrafias sobre papel recentes. É o pintor que volta a se manifestar.

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