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Desgostos de agosto

A tradição assegura que se trata de mês de mau agouro. É o mês do cachorro louco!

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

Acabei de voltar de breve intervalo em Bariloche. Tenho em comum com a princesa Elsa de Frozen (Chris Buck e Jennifer Lee, 2013) o fato de que o frio não me incomoda. Minha única crítica à estação é que moradores de rua sofrem no inverno, assim como idosos padecem com problemas de saúde agravados. Minha mãe diz a cada fim de agosto que, se ela ainda não fez a passagem desta vez, é sinal de que chegará até o ano seguinte. Agosto é dado a convidar terceira idade para a travessia.

A tradição assegura que se trata de mês aziago, de mau agouro. Expressão muito romana, é um período nefasto. Poucas pessoas casam em agosto. É o mês do cachorro louco, dizem! Não sei se existe algum estudo que aproxime a hidrofobia animal do mês em curso. Tenho uma hipótese: sendo um mês de calor e luz na maior parte do Hemisfério Norte, mais gente está na rua até tarde e fazendo passeios por parques e bosques, aumentando a chance de encontrar cães perdidos e/ou raivosos. Plínio, o velho, em sua História Natural (Plin. Nat. 2.40), afirma ser indubitável que quando a “estrela-cão” Sírius ascende, no verão do Hemisfério Norte, os cães ficam mais rábicos.

Há uma retórica mágica nas rimas de agosto/desgosto. É o mesmo motivo para Santa Luzia, tradicional protetora dos olhos, também ser usada para curar acidez estomacal pelo eco dos termos Luzia-azia. 

Brasileiros gostam de lembrar de tragédias como o suicídio de Vargas ou a renúncia de Jânio, todas ocorridas em agosto. Podemos acrescentar a erupção do Vesúvio sobre Herculano, Pompeia e Stabia, provavelmente em agosto do ano de 79. 

Trata-se de pensamento mágico. Primeiro, o suicídio de Vargas é uma tragédia para sua família e seus correligionários. O potiguar Café Filho que sonhara a vida inteira com o cargo de presidente conseguiu, ao custo de um tiro no Catete, viver os meses de glória aos quais aspirara. Será que Café Filho consideraria azarada a data de 24 de agosto? Em público sim, privadamente somos sempre um pouco distintos. A renúncia de Jânio foi muito sentida em virtude da crise que se seguiu, não exatamente pela figura do sul-mato-grossense da vassoura purificadora. 

Todos os fatos são ambíguos: sem a trágica erupção, o turismo da região ao sul de Nápoles perderia muito e pouco saberíamos da vida cotidiana romana. Para lojas de souvenires das encostas do vulcão, foi uma sorte extrema a tragédia. 

O fechamento da nossa primeira Assembleia Constituinte foi em novembro de 1823, mesmo mês do assassinato de Kennedy, em 1963. A morte de Tancredo Neves foi em abril de 1985. O ataque às torres gêmeas de Nova York foi em setembro de 2001. Realmente, em agosto, duas bombas atômicas caíram no Japão. Fatos variados ocorrem em meses variados. Agosto não tem primazia. 

Para os amantes de ostras na Europa e EUA, é um mês sem R, ou seja, fase na qual não se pode consumi-las sem um risco alto de intoxicação. Meses quentes do Hemisfério Norte anglófono e francófono (may, june, july, august/ mai, juin, julliet, août) não apresentam R no nome, facilitando o conselho sanitário. Para as ostras, talvez, agosto seja um mês de sorte. 

Tantos detalhes menores para chegar a algo importante: não existe sorte, azar, mês aziago, número positivo ou cor favorável ao destino. Como lembrava Sartre, os sinais estão pelo mundo e quem os interpreta são os homens, que constroem significados a partir do aleatório. O pensamento mágico é uma forma expressiva para conhecer a espécie humana. Porém, forçoso dizer, na prática, tão útil como cruzar os dedos em caso de o avião arremeter. A posição do dedo médio e do indicador não tem efeito verificável sobre a força da gravidade ou a habilidade do piloto. Fazer uma figa, por exemplo, pode acalmar o passageiro tenso e transferir o foco da sua concentração do esfíncter que periclita para a mão com efeitos colaterais menos danosos. 

Por falar em aviões, ao entrar em um na semana passada, quase atropelei uma gentil senhora que estava num ritmo rápido quando, de repente, parou para trocar o pé e, como me confessou depois, entrar com o direito no avião. Sem me advertir previamente e sendo eu um panzer expresso em aeroportos, ela quase entrou com o pé correto, mas quebrados ambos com nosso impacto. 

Eu sei. A força tribal da magia é anterior à lógica formal. Eu já terei virado um punhado de átomos dispersos e a magia ainda será forte no mundo. A vitória final é sempre do pajé, nunca do infectologista. A magia informal e a pseudociência (a que mais me irrita) ainda têm longa trajetória a sua frente. O totem sobrepuja o tabu. Porém, de forma antipática, reconheço, toda vez que esbarro em alguém preocupado com o pé direito ou esquerdo no avião, penso: esses mesmos pés levam aquele ser à urna eleitoral. Bom domingo e “boa sorte” para todos nós! 

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