MAISON CHANEL
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Desfile replica apartamento de Chanel em parceria com Sofia Coppola

Para a sua estreia na coleção Métiers d’Art, a nova estilista Virginie Viard se inspira na memorabilia art déco de Coco Chanel

Maria Rita Alonso ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 21h46

O endereço de Coco Chanel no número 31 da rue Cambon marcou uma época de ouro da moda francesa. Era ali que ficava o apartamento da estilista, no segundo andar, entre o seu estúdio de criação e o ateliê de alta-costura. E que rolavam também os desfiles mais incríveis de Paris. As modelos surgiam elegantemente por uma escadaria espelhada, chiquérrima, em estilo art déco, até chegar na passarela. Faziam um tipo de entrada silenciosa, porém reveladora – e isso tem tudo a ver com o atual momento da marca, sob a nova direção criativa de Virginie Viard, depois da morte de Karl Lagerfeld em fevereiro.

Virginie é a primeira mulher a liderar a maison desde a própria Coco Chanel, e tem pela frente o enorme desafio de conduzir o legado desses dois gigantes, atendendo uma clientela multigeracional e global. “Absorvi completamente os códigos da Chanel. Cresci aqui. Sou filha de Karl e Gabrielle”, disse ela, que chegou à empresa como estagiária, em 1987, e acabou virando o braço direito de Lagerfeld.

Por esse prisma, é fácil entender por que, para o seu primeiro desfile da coleção Metiers d’arts, apresentado na quarta, 4, Virginie decidiu reproduzir ambientes do antigo apartamento de Chanel, no monumental Grand Palais, em Paris, onde Karl brilhou muitas vezes com apresentações espetaculares.

Para conceber o cenário, Virginie contou com a parceria de peso da diretora Sofia Coppola. Juntas, elas armaram uma série de salas aconchegantes, que replicavam ambientes barrocos decorados com tudo que mademoiselle Chanel gostava e se importava. Logo na entrada, sofás beges, lareiras de mármore e lustres de cristal e ametista atraíam os convidados do desfile (mais de 1 mil pessoas) a uma experiência inusitada. A atriz Marion Cotillard se aconchegou por ali, Penélope Cruz inspecionou os objetos nas estantes... nem as supercelebridades resistiram às curiosidades da decoração, que entregavam muito sobre a intimidade da estilista. Enquanto isso, gente da elite parisiense, jornalistas e clientes vindos do mundo todo faziam um reconhecimento da área, tirando fotos ruins de tudo porque a iluminação era baixa e cozy.

“Esse é um espaço tão acolhedor. Sempre amei o enorme sofá de camurça bege de Chanel. Karl também gostava muito”, lembra Virginie. Chanel prezava pela simetria e comprava peça decorativas aos pares. Extremamente supersticiosa, deixava uma bola de cristal sobre a mesa de centro. As estatuetas de leões (seu signo astrológico) ficavam ao lado de livros de literatura e arte moderna. Ela também era louca por tarô, tinha seus números de sorte (vem daí o nome do Chanel N° 5, o perfume mais famoso do planeta) e mantinha ramos de trigo seco em vasos para trazer prosperidade.

Estimulada por esse universo particular, Virginie fez criações da coleção girar em torno do tema. O trigo, por exemplo, apareceu bordado com lantejoulas douradas em cardigãs e vestidos. O coromandel lacado (aquele biombo com motivos chineses que Chanel adorava) inspirou detalhes refinados em punhos e barras. O desfile foi cool, foi chique e foi luxuosamente descolado. Virginie conseguiu imprimir seu estilo edgy e superparisiense de um jeito jovem e sedutor. A mulher da Chanel ficou mais leve e também mais sexy. “Enquanto Viard evita as silhuetas enfáticas, truques espirituosos e as notícias vertiginosas de seu antecessor, ela se concentra em roupas de modelagens simples e fáceis de usar que têm um apelo atemporal – propondo uma abordagem mais moderna”, observa Hamish Bowles, editor da Vogue americana.

Para elaborar a coleção, a estilista também mergulhou nos arquivos da marca e criou séries de looks monocromáticos, com peças pretas inteiras de renda, e brancas fluidas e sensuais. Símbolos da grife, como as camélias, as pérolas e as correntes, foram espalhados pelos 77 looks desfilados.

Vieram boas surpresas. Primeiro um blazer bicolor, depois saias de tweed de cintura baixa (a top Gigi Hadid estava um arraso!), deixando a barriga à mostra. O casaco de couro metalizado em degradê, do preto ao prata, causou. Vestidos vaporosos em tie dye e um macacão inteirinho de paetê prateado também. Algumas peças tinham aquela sensualidade francesa, aquele je ne sais quoi. Outras mostravam o apuro técnico das casas de artesania mais luxuosas da Europa (muitas delas adquiridas nos últimos anos pela Chanel).

Essa coleção foi criada, em 2002, justamente para ressaltar o trabalho de bordadeiros, fabricantes de plumas e flores de tecido, chapeleiros, etc. Anteriormente, era um show itinerante, com desfiles apresentados em Dallas, Hamburgo, Roma e, no ano passado, no Metropolitan, em Nova York. Mas Virginie, dessa vez, preferiu voltar para Paris. 

Às vésperas do Natal, a cidade estava toda enfeitada, com árvores e guirlandas pelas ruas e pontos turísticos. “A ideia de regressar à casa foi um tema recorrente da noite; um lembrete de que, embora a direção tenha mudado recentemente, a história e a visão da Chanel permaneceriam as mesmas. Reconhecendo a importância de continuar a tradição de desfiles de sucesso de público no estilo cinematográfico”, ressaltou Elizabeth Paton, editora do The New York Times.

A contar pela a reação da plateia, atiçada pelas memorabilias de Chanel e encantada com o vai e vem das modelos, Virginie está se saindo muito bem. Na réplica da escadaria do lendário apartamento, foi aplaudida de pé, por ser capaz de mostrar uma moda tão contemporânea a partir de um legado tão conhecido, mudando tão pouca coisa. 

Virginie Viard celebra o estilo chique e inteligente

Autêntica representante da mulher parisiense, a nova estilista da Chanel não cede ao estilo ‘perua’

Existe um pragmatismo na moda de Virginie Viardi e ele ficou claro nessa última apresentação de Métiers d’Art. Está ali, na camiseta branca desfilada pela top Kaia Gerber (agora com um corte de cabelo curto e legal), no blazer preto curinga usado como vestido... Virginie é meio rock’n’roll, meio ativista, meio intelectual. Uma fiel representante da mulher parisiense, que tem pavor de parecer frívola ou burra (motivos históricos não faltam, vide a tragédia de Maria Antonieta e a glória de Simone de Beauvoir). Ela não cede a exageros ou ao estilo ‘perua’.

No comando da maison desde a morte de Karl Lagerfeld, em fevereiro, traçou praticamente toda a sua trajetória profissional ali. “Ela é meu braço direito e meu braço esquerdo", costumava dizer Lagerfeld.

Diretora de estúdio da Chanel desde 1997, a estilista começou como estagiária de Karl na marca em 1987. Quando ele assumiu a direção da Chloé, ela passou uma temporada de cinco anos por lá e em seguida retornou como pessoa-chave no ateliê e nos bastidores dos desfiles da Chanel. 

“Gosto de moda que dura, aquela que se encaixa no tempo.”, disse em entrevista ao jornal Le Figaro. “Sempre questiono o contexto, que não tem nada a ver com a maneira como vivemos décadas atrás: o que uma mulher gostaria de vestir hoje? Como usaria essa roupa?”.

Para Virginie, essa coleção desfilada na quarta, 4, em Paris, ao som de hits do pós-punk, é um retorno ao primeiro show da Métiers d'Art, lançado em 2002, justamente nos salões da 31 rue Cambon, onde fica o apartamento de Chanel até hoje inalterado.“As modelos fumavam cigarros enquanto ouviam Lou Reed. Era mais uma atitude do que um tema”, lembra ela. O que faz pensar em uma célebre frase de Coco Chanel, mais certeira impossível: “A moda muda, o estilo permanece".

 

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