Desfile da Acomb emociona no último dia de Fashion Rio

Grife social criada por ONG a partir de cooperativas traz história da comunidade da Cidade Alta para a passarela

Clarissa Thomé, de O Estado de S.Paulo,

12 de janeiro de 2008 | 22h07

A grife social Acomb, formada por costureiras da Cidade Alta, subúrbio do Rio, fez o mais emocionante desfile deste Fashion Rio, que chegou ao fim neste sábado, 12. As roupas criadas com a assessoria de Beto Neves, da Complexo B, foram aplaudidas em quase todas as entradas das modelos - três delas nascidas na comunidade.  Veja também: Galeria de fotos do Fashion Rio   A história da Cidade Alta, inspirada na fábula da Gata Borralheira, foi retratada em estampas com a imagem das janelas dos prédios, da cidade recortada por morros e das bonecas banto resgatadas pelas cooperativas criadas pela ONG Ação Comunitária do Brasil - e que deram origem à Acomb.  Katy Rosa personificou a Gata Borralheira/Cinderela Moderna. Nascida na Cidade Alta, negra, linda, inteligente - concluiu o segundo grau aos 16 anos, sem nunca ter repetido uma série -, foi babá até os 19. Nessa época, passou a fazer os cursos da Ação Comunitária do Brasil. Hoje, é bordadeira (passou a madrugada da véspera do desfile finalizando peças) e modelo agenciada pela 40 graus. "Nunca sonhei muito porque achei que pobre não tinha direito de sonhar. Agora faço planos. Tenho perspectiva", disse a moça de 21 anos.  Katy fez duas entradas na passarela - a primeira, ainda como Borralheira, vestindo um tubinho todo bordado. A segunda, já Cinderela, num vestido branco, de saia rodada, com apliques de paetê de coco. Um dos vestidos - um tubinho todo preto com linhas coloridas bordadas - trazia o nome de cada moça que fez o artesanato: adolescentes infratoras internas.  O desfile empolgou desde a abertura, feita pelo grupo Kina Mutembua e Orquestra de Berimbaus, também nascido na Ação Comunitária, à trilha, de Elza Soares. Os sapatos atrapalharam um pouco - mas até quando elas descalçavam o scarpin eram aplaudidas. Na primeira fila, o ministro do Trabalho, Carlos Luppi, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli (a ONG é patrocinada pela estatal), e atrizes como Isabel Filardis e Carla Marins.  Moda Hype Seis dos 12 estilistas selecionados no prêmio Rio Moda Hype abriram o último dia do Fashion Rio - outros seis desfilaram na véspera. A preocupação ecológica foi uma constante. A paulista Carú, da Landacarú, fez roupas confortáveis na coleção Pano de Vestir. Modelagem ampla em tecidos costurados à mão e lã de ovelha fiada manualmente.  Paulo Luz, da Pluz Brasil, buscou inspiração no "neo eco.punk", descrito como personagem contemporâneo, que não é adepto de drogas, não é violento, é vegetariano, e tem consciência ecológica. O ambientalista Chico Mendes seria o ícone dessa atitude. Para eles, sarouel e legging. Para elas, vestido solto e saia ajustada.  As quatro estilistas da No Hay Banda - Bruna Santini, Cláudia Mine, Juliana Magro e Marina Pontieri - fizeram coleção baseada nos opostos - côncavo e convexo, linhas retas e angulares. O resultado foram recortes ousado, uma roupa sofisticada e com belo caimento. As quatro foram das mais aplaudidas. Ivã Ribeiro inspirou-se numa fotografia da mãe no carnaval de 1955 e no filme de Steven Spielberg a Cor Púrpura para lançar a coleção Purple Rain. Tecidos leves, como organza e tricoline, foram usados em vestidos de saia rodada, esvoaçante. As cores: branco, lilás, amarelo, azul e vermelho. As modelos, talvez inspiradas na trilha de Carol Monte (irmã da cantora Marisa Monte), com Billie Holiday e Amy Winehouse, desfilaram cheias de atitude, com direito à paradinha no meio da passarela.  Rique Gonçalves, da R. Groove, fez uma moda masculina bem urbana, com estampas em toy art, grafite e muita cor. Os modelos tinham perucas em vinil, como os bonequinhos que inspirou a coleção. A Random teve como tema o casulo - roupa com volume, que protege quem usa. Muitas peças amplas, em matelassê, deram a idéia de conforto.  Estreante O estreante Ivan Aguilar mostrou uma moda masculina levemente inspirada nas duas Grandes Guerras. Em estampas pied de coq e vichy, o estilista fez calças secas, ajustadas no tornozelo por polainas. O acessório, que foi moda nos anos 80, também foi usado com shorts justos, apertados nas coxas. As cores: preto, branco, lilás e vinho. As gravatas estreitas fora produzidas em seda, shantung e tafetá.  A estilista Rita Wainer, da Theodora, desfilou pela primeira vez uma linha que leva seu próprio nome. A coleção, "mais madura, inspirada nos desejos, em suas mais diversas manifestações", nas palavras de Rita, mostrou roupas amplas, soltas, que praticamente escondem as formas femininas. Ela usou muita lã e tafetá em cores como azul, amarelo, vermelho e prata. Entre os 22 looks, destacou-se um balonê bem armado em prata. A estilista fugiu das estampas. Em alguns momentos, o desfile parecia uma armadilha para as modelos - a passarela recoberta de areia dificultou o caminhar das moças, que usavam scarpins altos. Outra, usava um longo colar, com patuás, penas e símbolos de proteção, que quase a fez tropeçar. O adereço, que também ficava preso aos pulsos, a obrigava a desfilar com as mãos na cintura.  Encerramento Já a estilista Alessa encerrou a semana de moda com a coleção Primeiro as Damas, sobre o tema Jogos. Ela usou tecidos como organza, cetim de seda  e seda de algodão, com estamparia que lembra jogos de baralho. As saias tinham diversos comprimentos - mini, nas coxas, abaixo dos joelhos, mas sempre com a elegância característica de Alessa Migani. Ainda que não apresentadas no desfile, a coleção Primeiro as Damas inclui as frases irreverentes - marca registrada da grife -  estampadas em camisetas. "Fashionholic", "Primeiro as Damas", "Azar no jogo. Sorte no amor" são algumas delas. Alessa agradeceu ao público num macacão preto com a inscrição "Xeque Mate". Texto atualizado às 22h40 

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