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Desenhista do conforto

"Falam em estilo, mas não há estilo", afirma o arquiteto de 85 anos sobre princípio criativo

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 08h53

A Poltrona Mole (que ficou conhecida como Sheriff Chair, cadeira do xerife, nos Estados Unidos) foi um símbolo. Ganhadora do prêmio italiano Selettiva Cantú, espalhou arredondamento, despojamento e humor na tradição modernista dos finais do anos 1950.

Mas o arquiteto e designer Sérgio Rodrigues, seu autor, diz que ela sofreu rejeição inicialmente quando apareceu, há 56 anos. “Escandalizou”, conta. Trazia em seu conceito o relevo do Rio, a praia, o savoir-vivre típico de um mundo.

O sr. costuma ser mais analisado como designer do que pelas casas que projetou. Mas também é conhecido como artesão, desenhista. O que prefere?

Todos os meus afazeres estão ligados à arquitetura, então eu sou arquiteto. Fico contente que um trabalho que começa em meados do século passado tenha até hoje uma certa repercussão.

Não tem feito mais casas?

Por coincidência, estou começando uma casa agora. Fiquei um ano e meio parado por problemas de família e agora estou trabalhando, fazendo coisas interessantes para um pessoal aí. Um deles é Paulo Casé, que é tio da Regina Casé. Fiz quase 200 casas, desde casinha de cachorro até mansões de quatro pavimentos, totalmente de madeira. Mas trabalho muito com arquitetura de interiores. Você sabe, até agora não há uma compreensão total do que seja a arquitetura de interiores. Falam em estilo, mas não há estilo. O homem, quando encomenda um trabalho desses, quer que o profissional resolva o problema. E, em geral, os ditos profissionais querem impor determinado elemento que eles, pessoalmente, curtem. Muita gente aceita isso por causa do nome do arquiteto, da sua fama. Mas eu, quando faço um interior, dou mais importância ao ambiente até do que à fachada da casa. Valorizo o espaço, o conforto, a característica do dono da casa.

Essa preocupação com o conforto começa com a cadeira Mole, que ficou como uma marca da era da bossa nova, não?

Não tenha dúvida. Chamaram até de “a cadeira bossa nova”. Era uma época de grandes símbolos: Maria Esther Bueno foi campeã, JK mudava o País. Ganhamos uma Copa do Mundo. Muitos ensaístas e jornalistas valorizaram o papel da cadeira, como o Millôr e o Sérgio Augusto. Mas ela não foi sucesso imediato. Escandalizou muito quando a fiz. Ficou um ano na vitrine da loja antes de ser aceita. Diziam: “Mas isso aí é uma cama de cachorro?”. E só foi descoberta em 1961, quando ganhou um prêmio instigado pelo Carlos Lacerda, que tinha comprado uma cadeira para a biblioteca dele. A partir dali, foram muitos prêmios. Foi premiada em Milão, ficando na frente de mais de 50 concorrentes do mundo todo.

O sr. usava muito jacarandá, imbuia, peroba. Isso hoje não pode, é proibido. Como faz móveis atualmente?

Hoje uso ipê, tauari, madeiras de reflorestamento. Agora é praticamente impossível usar aquelas madeiras. Mas, para fazer artesanato, móveis em pequenas oficinas, não requer muito material.

Como o sr. começou a fazer móveis?

Fui praticamente criado em uma casa no Flamengo, em que meu tio-bisavô, que descendia de escoceses, tinha uma marcenariazinha. Ele contratou dois marceneiros portugueses de alto nível para produzir uns modelos que desenhava. Eu ficava do lado, aproveitando cavacos de madeira, fazendo casinholas, carrinhos. Eu passei a desenhar antes mesmo de executar. Via como meu tio fazia: ele entregava uns rabiscos aos marceneiros e eles executavam obras-primas. É praticamente isso o que é a arquitetura e também o design. Era um casarão de gosto duvidoso na Praia do Flamengo que chamavam de castelinho, porque imitava alguma coisa do início do século 19.

O sr. foi amigo do Niemeyer?

Claro, fomos amigos. Quando ele não encontrava móveis, me procurava. Fiz as cadeiras e as poltronas do Teatro Nacional de Brasília, fiz muitas peças para o Itamaraty, para o Palácio do Planalto. Eu ainda era meio cru, estava no início. A coisa mais séria que fiz em termos de criatividade, naquele tempo, foi o trabalho para a Universidade de Brasília.

O sr. acha que o trabalho como arquiteto tem de ter algum tipo de responsabilidade social?

Claro, lógico. A casa não deixa de ser um outro tipo de vestimenta do homem. Acho os trabalhos populares uma coisa maravilhosa. É arte fazer uma casa que tenha uma função social.

 

Filme sobre artista enfrenta cenário de pouca produção

Segundo o cineasta Peter Azen, que prepara filme sobre Sérgio Rodrigues, a tradição brasileira a respeito do gênero arquitetônico é fazer documentários com linguagem televisiva, que faz com que projetos não cheguem ao cinema. “Existem alguns bons documentários sobre arquitetos no País, como o do Niemeyer e o lindo curta-documentário Arquitetura de Morar, que o Antonio Carlos Fontoura fez sobre o trabalho do Zanine Caldas”, ponderou. “Nos Estados Unidos também existem muitos filmes bons sobre arquitetos e moveleiros, como o documentário sobre o casal Eames.” A obra de Rodrigues estimularia, em certa medida, uma oposição à rigidez alemã da Bauhaus. “Não diria uma resposta, mas diria que cada um representa bem a sua origem e a cultura da época.”

 

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