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Desencontro

Decidiram que o Juca tinha que conhecer a Helena. Os dois gostavam de ler, entendiam de música e de cinema, formariam um par perfeito

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

23 Setembro 2018 | 02h00

Decidiram que o Juca tinha que conhecer a Helena. Os dois gostavam de ler, entendiam de música e de cinema, formariam um par perfeito. Eram – segundo Miguel, que arranjaria o encontro – almas gêmeas que só precisavam se encontrar. E o encontro se deu, na mesa do bar que a turma frequentava. Toda a turma presente, para não perder o acontecimento.

Devidamente instruído pelo Miguel (que recomendara: “Vai leve, ela é sensível”) Juca começou:

– Então você é a Helena. O pessoal fala muito em você.

– E você é o...

– João Carlos. Juca,

– Juca. Muito prazer.

– Me disseram que você gosta muito de música.

– É verdade.

– Bach ou Mozart?

– Prefiro o Beethoven.

– Beethoven. Hmmm. Um pouco bombástico para o meu gosto.

– Como, “bombástico”?

– E cinema? Fellini ou Antonioni?

– Nenhum dos dois, Fellini sempre foi um farsante, e de que adianta ser italiano como o Antonioni e viver agoniado?

– Espera um pouquinho. Fellini farsante?

– Farsante. Farsante!

Helena estava quase levantando da cadeira. Miguel tentou intervir.

– Gente, calma.

Alguém cobrou:

– Ó Miguel, quem foi que pesquisou esse encontro?

Miguel propôs:

– Quem sabe vocês falam sobre literatura? Vocês preferem Hemingway ou Fitzgerald?

– Nenhum deles! – gritou Helena, possessa – Os dois eram homossexuais, só que o Hemingway disfarçava. O cara era o Faulkner!

– Ah, é? Ah, é?! E o Dos Passos?

– Gente – tentou Miguel – e se vocês falassem de política? Em quem vocês vão vo...

– NÃO! – gritaram todos na mesa, temendo que corresse sangue.

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