Desencaixotando Agrippino

Disco e documentário inéditos do escritor de PanAmérica são pérolas de A Caixa do Agrippino, em abril

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2012 | 03h10

Uma esfinge artística sempre em processo de decifração, José Agrippino de Paula, o "Bruxo do Embu", guru tropicalista que morreu em 2007, deixou como legado uma imensa obra multimídia - cinema, literatura, dança, teatro, happening, artes visuais, filosofia. Entre os dias 12 e 15 de abril, no Sesc Belenzinho, um evento de natureza também multidisciplinar tenta dar conta desse leque de habilidades do artista. Trata-se de A Caixa do Agrippino, que revela ao público uma faceta inédita do cineasta e encenador - a de compositor e músico.

Agrippino costumava preparar, ele mesmo, a música que serviria de background para suas incursões no teatro e no cinema. Em 2008, a videomaker e pesquisadora Lucila Meirelles, curadora de A Caixa do Agrippino, gravava um videodocumentário para o Sesc TV sobre Agrippino, e foi à casa do cineasta Hermano Penna, que trabalhou com o Bruxo do Embu, e este lhe mostrou uma fita com o desconhecido disco Exu Encruzilhadas, de 1971.

Era um som feito de improvisos circulares (como na tradição sufi ou nas composições aleatórias de John Cage e de Marco Antonio Guimarães, do grupo Uakti), com um formato de cerimonial de candomblé. A fita não estava em bom estado, teve de ser recuperada e remasterizada e levou quatro anos para ficar pronta (o Estado noticiou a descoberta com exclusividade, em 2008). Mas eis que volta à vida agora em uma caixa que tem ainda um DVD extra, com os curta-metragens Candomblé no Dahomey e Candomblé no Togo.

Música de sentido ritualístico, possui faixas com nomes como Funeral de Iansã e Veneno de Deus e organiza ruídos, mais do que cria música convencional, sem preocupação com início e fim, misturando-se organicamente. Foi gravado em estúdio doméstico pelo artista e por sua mulher na época, a coreógrafa e bailarina Maria Esther Stockler.

Agrippino escreveu, nas costas da caixa da fita que contém o disco Exu Encruzilhadas: "Não ouça música, bicho. Crie seu barulho". Antecipava assim, em meia dúzia de anos, o mandamento maior do punk rock ("Do it yourself", faça você mesmo), aconselhando a nova geração a se afastar daquela produção industrial megalomaníaca da época, retomando as rédeas de seu imaginário e de suas vidas.

O som é maluco, mas o formato que Agrippino vendia é o de um elepê convencional, com 10 faixas que o artista recomenda "ouvir curtindo altíssimo", segundo deixou anotado no verso da fita. Um dos primeiros adeptos da pop art norte-americana, atento às experiências de Andy Warhol e Rauschenberg, o artista remete a esse universo pop em pelo menos uma música, Surfista Prateado, menção ao personagem dos quadrinhos criado por Stan Lee.

Pelo impacto de seu livro PanAmerica em gerações posteriores, Agrippino já teria feito muito. Mas fez muito mais, incluindo filmes de grande influência, como Hitler Terceiro Mundo e Céu Sobre Água, e o espetáculo experimental Rito do Amor Selvagem.

A caixa conterá ainda duas entrevistas inéditas de Agrippino: uma delas gravada pela psicanalista Miriam Chnaiderman em encontros no Embu, em 2005 e 2006, e o depoimento Lero Lero Agrippino, gravado em 1998 por Lucila Meirelles. Um livreto amealha depoimentos de personalidades como Arnaldo Antunes, Carlos Reichenbach, Jô Soares, Mário Prata, Tom Zé, Stênio Garcia (que atuou em Rito do Amor Selvagem), entre outros, e um texto deste repórter.

Agrippino viveu um período de intensa criatividade nos anos 60 e 70. Diagnosticado como um caso agudo de esquizofrenia nos anos 70, passou a viver isolado no Embu, em São Paulo. Em 2006, um grupo de psicanalistas, liderado por Miriam Chnaiderman, produziu o documentário Passeios no Recanto Silvestre, também no programa do Sesc. Haverá debates e mesas-redondas.

No evento A Caixa do Agrippino será exibido ainda um documentário inédito do autor: a filmagem da encenação da peça O Balcão, de Victor Garcia, em 1969. É um filme de 26 minutos.

"Vi o filme O Balcão, por incrível que pareça, pela primeira vez, em Paris, em 2010, na Mostra do José Agrippino, organizada pelo crítico Yann Beauvais, no Centre Georges Pompidou. Não acreditei. No Brasil, nunca soube da sua existência. E o que me espantou foi que o filme estava em perfeitas condições", conta Lucila Meirelles, que conheceu Agrippino em 1977 e tem sido responsável pelo resgate de sua obra. "A última vez que eu filmei... Não sei se você conhece a Bahia. Conhece? Em 1972, eu estive lá com a Maria Esther Stockler, para o festival do Instituto Goethe. Fui para Arembepe, uma aldeia de pescadores, cheia de dunas de areia, de alagadiços ao longo dos coqueirais. Lá, nós filmamos Céu Sobre Água. Foi a última vez", lembrou Agrippino, no último encontro com a reportagem, em 2003.

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