Desejo, morte e vida no palco do Municipal

No palco do Teatro Municipal, dois triângulos amorosos. Em Violanta, de Korngold, a personagem título e seu marido Simone querem se vingar de Don Alfonso, responsável pela morte da irmã da moça. Em A Tragédia Florentina, de Zemlinsky, Simone mata Guido, que avança sobre sua esposa Bianca. Ambas as tramas estão ambientadas no Renascimento Italiano, mas é o momento em que as óperas foram escritas que dão a pista do que está por trás das duas histórias - o início do século 20 e a descoberta do inconsciente.

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

Violanta quer matar o algoz de sua irmã. Para tanto, decide seduzi-lo e diz ao marido que "o desejo indecoroso em seu rosto pálido", na hora da morte, vai devolver a ela o prazer da vida. Mas Violanta ama Don Alfoso. Assim como na Tragédia, a ameaça da traição faz parte do jogo que move o casal, que a partir dela reinventa o próprio desejo.

Nada, enfim, é o que parece. Vida e morte são faces da mesma moeda - e ambas se encerram na certeza de um desejo incontrolável. A certa altura, na Tragédia, Simone pergunta: "será que o mundo inteiro está confinado neste cômodo?". O mundo todo cabe na mente humana. E é ela a personagem de ambas as óperas.

A montagem em cartaz no Municipal traz a assinatura de Felipe Hirsch e é desde já um dos melhores trabalhos a subir ao palco da casa nos últimos anos. Os cenários, que de maneira distinta delimitam o espaço da ação em ambas as óperas, criando palcos dentro do palco, se prestam ao caráter quase claustrofóbico (a prisão da mente, entre o real e a fantasia) das narrativas - e o caráter visual atemporal parece sugerir que esses temas são universais e seguem atuais.

O principal acerto de Hirsch, no entanto, está na direção de atores, que faz da Violanta de Eiko Senda, do Alfonso de Martin Muehle, do Simone de Rodrigo Esteves e da Bianca de Céline Imbert marcos de interpretação, assim como a atuação de excelente elenco de apoio, com nomes como Ednéia de Oliveira, Paulo Queiroz, Diógenes Gomes e Manuela Freua, entre outros. Cenicamente perfeito, o Simone de Federico Sanguinetti sofreu com a falta de uma voz mais escura e adequada ao papel.

Musicalmente, ainda que em algumas passagens a Sinfônica Municipal soe forte demais, o espetáculo teve o ponto alto na regência de Luis Gustavo Petri, atento não apenas às diferenças entre o clima das duas partituras, mas também aos contrastes internos que elas carregam, em especial na Violanta, marcada por uma alternância de histeria, melancolia - e um lirismo que, em alguns momentos, beira a ironia.

Crítica: João Luiz Sampaio

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