Desejo e satisfação segundo Vandekeybus

O coreógrafo belga Wim Vandekeybus costuma usar diversas linguagens em suas criações, como o teatro cinema e, claro, a dança. O resultado, normalmente, é polêmico, ultrapassando muitas vezes os limites da dança e do próprio corpo - o risco é uma constante em suas criações. Em In Spite of Wishing and Wanting, coreografia que será apresentada nesta quarta-feira e quinta no Teatro Alfa por sua companhia Ultima Vez, Vandekeybus trata do desejo, na sua forma inconsciente, via sonhos.Os bailarinos agem como se estivessem dormindo, mais precisamente, sonhando. Então se agitam, debatem-se, os movimentos tornam-se expressivos. Trabalha com a parte oculta da realidade, como os pensamentos e os sonhos. "Ao observar uma pessoa dormindo, percebe-se algo de contraditório e misterioso: algo muito doce, frágil e ao mesmo tempo impenetrável, como uma pedra", explica Vandekeybus. É aqui onde o desejo tratado na coreografia está.""Em In Spite of Wishing and Wanting, eu lido com as emoções, principalmente com o desejo. É claro que esse tema é muito genérico e, ao mesmo tempo, acredito que seja muito difícil de ser explicado com palavras", diz. "O mais importante para mim é mostrar a trajetória do desejo e da satisfação - a satisfação é básica na vida das pessoas. Analiso esses sentimentos, procuro entender como as pessoas usam isso e o que elas querem por meio da paixão, da energia, quando estão apáticas, frustradas ou entusiasmadas."No princípio, essas emoções eram trabalhadas somente com homens que atuavam no palco. "Eu trabalhava apenas com garotos não porque queria mostrar a diferença dos sentimentos entre homens e mulheres, ou algo do gênero. Na realidade, as minhas intenções são mais simples: minha fonte de inspiração foi Pier Paolo Pasolini, que trabalhou apenas com garotos em um trabalho que eu havia visto dias antes de criar este trabalho", conta o coreógrafo. "No entanto, agora, as garotas também fazem parte do espetáculo."Vandekeybus leva ao público questões psicológicas, muitas vezes reprimidas pelo consciente que, de acordo com ele, por medo de enfrentar certas questões, afloram durante o sono. "Eu escolhi por em cena algo abstrato, escolhi colocar os bailarinos em uma série de posições como se estivessem dormindo, porque eu entendo que o inconsciente permite que o desejo verdadeiro venha à tona. Esse desejo de verdade é mais honesto, então, estimulei os movimentos dos bailarinos como se eles estivessem dormindo, explorei a ação de dormir."Por essa razão, durante In Spite of Wishing and Wanting, as pessoas assumem a posição do corpo como se este estivesse em repouso, o que não impede as atitudes - mesmo quando os bailarinos estão em pé, é como se estivessem dormindo - , eles trabalham com a ação de dormir. "Eu optei pelo ato de dormir, porém, mesmo que estejam em pé, caindo ou fazendo qualquer outra coisa, obviamente eles não estão dormindo, mas agem como se estivessem sonhando", explica.Cinema - Para compor sua obra, Vandekeybus funde o teatro e a dança com o curta As Últimas Palavras, filme baseado em dois contos do escritor argentino Julio Cortázar (Cuento sin Moraleja e Acefalia), já utilizado em outros trabalhos do grupo. Esses contos foram inspiração para a criação de várias performances. Nesse filme, o coreógrafo também trabalha com os instintos fazendo uma conexão com a proposta da coreografia."O segundo artifício que utilizo para lidar com o desejo e com o inconsciente é esse filme, pois fiz uma ficção baseada em Cortázar e o projeto conta com todos os atores cegos. De fato, a intenção é mostrar como as pessoas convivem com o desejos e todos os sentimentos que se supõem muito pessoais", comenta. "O desenvolvimento desse vídeo mostra de maneira poética a materialização do desejo; esse é um filme que apela para os instintos, não existe controle, os movimentos dos bailarinos são naturais e, ao mesmo tempo, sofisticados."Para o belga, apesar de o filme ser composto por atores cegos, o público não percebe essa sutileza, porque o importante é a performance que está sendo apresentada, a idéia embutida nela. "Para mim, todo filme tem a sua base no teatro, é uma necessidade porque o cinema precisa expressar algo, não somente técnico, mas principalmente as emoções, como as pessoas se relacionam, dançam, dormem, agem, entre outras atitudes, como no teatro."Para o criador, tanto o vídeo como a dança podem ser comparados a uma viagem, na qual as pessoas encontram paisagens diferentes, diversos estilos de vida e deparam-se com situações inusitadas, que muitas vezes chegam a ser cruéis, mas vale pelas mudanças que propiciam na maneira de pensar e perceber a realidade.Música - In Spite of Wishing and Wanting tem a trilha sonora assinada por David Byrne. O músico, que fazia parte do extinto grupo Talking Heads, também já gravou para Brian Eno, para a coreógrafa Twyla Tharp e para o diretor Robert Wilson. O primeiro contato entre Byrne e Vanderkeybus foi em 1991, em Seattle, nos Estados Unidos."Sempre gostei do trabalho de Byrne, de suas músicas, suas roupas, sem contar o impressionante talento, o que o transforma em uma pessoa extremamente ocupada com filmes, videoclipes e produções. Nós nos conhecemos após um show em Seattle, eu o assiti e gostei muito. E ele viu a minha peça Always the Same Lies."Anos depois, quando Byrne foi a Bruxelas e assistiu a um novo espetáculo da companhia Ultima Vez, surgiu a idéia de compor as músicas a partir dos textos do escritor americano Paul Bowels, porém não foi possível a realização do projeto porque não houve autorização do autor. Os dois artistas decidiram que seria melhor fazer a trilha sonora para um espetáculo."Durante o processo de criação fizemos vários encontros trocamos informações por telefone, E-mails, eu ouvi as gravações que estavam sendo realizadas e ao mesmo tempo ele assistia às fitas com os ensaios. Acompanhei o desenvolvimento das músicas que eram gravadas em Nova York e ele, o desempenho da coreografia em Bruxelas. No fim, acabamos fazendo algumas adaptações da música à coreografia", relata Vanderkeybus.Ultima Vez & Wim Vandekeybus - Duração: 1h45. Amanhã (08) e quinta, às 21 horas. De R$ 20,00 a R$ 90,00. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000. Patrocínio: Banco Real.

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