Desejo de narrar histórias

Cassandre já foi chamada de ópera falada, monodrama, melodrama. Como definir a obra?

O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h10

É uma questão que pude discutir com o próprio compositor e, ainda assim, não sei dizer se cheguei de fato a uma conclusão. Michael Jarrell anota, na partitura, melodrama mas se refere à obra como uma ópera falada. Pessoalmente, a vejo como um monodrama. Mas todas essas possibilidades são válidas e atestam a riqueza da peça.

Nesse sentido, em que medida a definição por gêneros é importante para a criação contemporânea?

Ao longo da história, gêneros como a sinfonia, por exemplo, serviram para definir algo, uma linguagem, uma forma. Mas durante o século 20, o mesmo termo passou a ser visto de maneira mais ampla, não necessariamente ligada ao significado original. O caso da ópera é particularmente interessante porque a essência do espetáculo será a mesma de sempre: o estabelecimento de uma narrativa, a vontade de contar uma história. O que acontece, com o passar do tempo, é que esse processo ganha uma maior complexidade, que vem da quantidade ampla de recursos dos quais um compositor pode lançar mão. A princípio, pode parecer que isso leva a obras que se afastam da proposta original do gênero mas, na verdade, são apenas novas maneiras de recuperar suas intenções primeiras. E, claro, isso pode criar uma dificuldade na definição de um espetáculo mas, como você coloca, rotular a obra simplesmente não deve ter uma importância capital.

Como surgiu seu trabalho com a música contemporânea?

Por algum motivo, aos 10 anos de idade eu já tinha vontade de escrever música. Aos 15, 16, comecei a reger. E logo percebi que seria difícil conciliar as duas coisas - em especial porque não acredito muito no meu trabalho como autor e sou obrigado a reconhecer que não tenho o dom (risos). Regi o repertório clássico, romântico mas me dei conta, talvez até por conta de minhas tentativas como compositor, que o que mais me fascina é compreender e dar vida à música nova.

Como define a importância do Ensemble Intercontemporain no cenário atual da criação e interpretação musical?

É uma pergunta traiçoeira (risos). No começo, o grupo esteve muito ligado às pesquisas do IRCAM mas, com o tempo, precisou se abrir a um leque maior de compositores e tendências. E a proposta de jamais se limitar a um repertório estabelecido também precisa ser relativizada, afinal a música do século 20, Schoenberg, Berg, hoje já forma um cânone e é interessante tê-lo ao lado de obras novas, escritas na nossa época, buscando respostas às nossas questões. / JOÃO LUIZ SAMPAIO

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