Tiago Queiroz/ AE
Tiago Queiroz/ AE

Descubra os centros culturais ao redor do Minhocão, em São Paulo

Junte-se ao movimento que planeja ocupar a região com arte, música, piquenique...

Ramon Vitral e Renan Dissenha Fagundes - Divirta-se,

16 de dezembro de 2011 | 09h42

Tudo bem se você não quiser escolher um lado na polêmica dos alunos da USP, ou se sair no sol para seguir uma passeata não é exatamente a sua. Há várias outras formas (algumas bem mais festivas) de se engajar: caso clássico do protesto transformado em churrasco em Higienópolis, em maio deste ano, ou de ações bem-humorados do movimento ‘Ocupe’.

 

Com essa pegada mais cultural e menos militante (mas sem deixar de ser crítico), o festival Baixo Centro quer ocupar a região de Santa Cecília, Campos Elísios, Barra Funda e Vila Buarque, levando atividades culturais para os arredores do Minhocão.

 

Se você é um leitor assíduo do Divirta-se e acompanha nossas reportagens, certamente busca novas e boas formas de aproveitar a cidade. Os organizadores do ‘Baixo Centro’ - um movimento horizontal, sem líderes, formado por vários produtores culturais - querem o mesmo: integrar o espaço urbano na vida dos moradores e utilizar São Paulo melhor: “as ruas são para dançar”, diz o slogan do festival.

 

E mais: você pode dar o seu empurrãozinho à retomada cultural dos bairros do ‘Baixo Centro’. Como? Descubraa seguir mais sobre o festival e como contribuir.

 

HACKEAR O CENTRO?

 

São Paulo está se fechando: há cada vez mais leis restringindo as possibilidades - e, principalmente, os horários - de uso de seus espaços urbanos. Convencidos de que nós, cidadãos, podemos propor as melhores formas de utilizar as ruas, os produtores culturais por trás do ‘Baixo Centro’ acreditam que a cidade precisa ser reaberta, ‘hackeada’.

 

E essa pegada tecnológica tem relação com a origem do grupo, articulado em torno da Casa da Cultura Digital (CCD), um espaço de trabalho em que vários empreendimentos - como o coletivo Garapa, a Esfera (do Ônibus Hacker), e a Agência Pública (veículo que publica o Wikileaks no Brasil) - dividem quatro casas de uma vila operária do início do séc. 20 na Barra Funda. Mas o CCD não é o comando do ‘Baixo Centro’. É apenas seu lugar de nascimento - e uma influência.

Isso se soma a uma outra influência, mais antiga: a contracultura. Quando amadureciam a ideia do ‘Baixo Centro’, vários de seus organizadores estavam lendo um livro sobre o grupo holandês Provos ( saiba mais abaixo).

 

O resultado prático é um projeto para levar ao entorno do Elevado Costa e Silva dez eventos, em um festival a ser realizado em março do ano que vem. E, seguindo a lógica da internet de unir em rede vários pontos dispersos, criar uma plataforma online para conectar os espaços culturais da região.

 

Mas a realização do festival ainda não está garantida. Enquanto buscam os recursos para viabilizá-lo, os criadores aceitam trabalho voluntário, doações e sugestões. A nossa? Nada de desobediência civil. Vamos ocupar as ruas, mas com a prefeitura do nosso lado.

 

DANÇARINOS DE RUA

 

O mote dos idealizadores do ‘Baixo Centro’ é que ‘as ruas são para dançar’. O lema foi emprestado do movimento Provos, criado na Holanda em 1965, no despertar da contracultura, e depois materializado em forma de revista. Contrário ao tráfego de veículos motorizados em Amsterdã, o grupo distribuiu pela cidade 50 bicicletas, pintadas de branco, para uso público. A ação se tornou símbolo do movimento e inspirou o uso de cores na expressão de ideais da contracultura ao redor do mundo - como o verde dos hippies de São Francisco. A história do Provos virou livro, publicado no Brasil pela Conrad (R$ 31).

 

FESTIVAL DOS FESTIVAIS

 

Conheça alguns dos eventos sugeridos pelos organizadores. E não seja tímido, apresente as suas

 

1) Apresentação de peças de teatro em uma tarde de domingo no Elevado Costa e Silva.

2) Passeio de coletivos de bike, organizado pelo movimento Bicicletada.

3) Roda de samba e choro em meio a um piquenique no Largo do Arouche, em uma tarde de sábado.

4) Uma exposição de fotos nas vigas do Elevado, do projeto ‘Que imagem você levaria para Marte?’, que tem curadoria da jornalista Gabriela Allegro.

5) Passeio pela região para visitar os locais com arte de rua já mapeadas pelo projeto Arte Fora do Museu.

6) Cortejo do grupo Ilú Obá de Min, que promove a valorização de culturas de matriz africana e afro-brasileira, com música e dança.

7) Construção do Carrinho Multimídia, com internet sem fio, som, luz, e equipamento de projeção, para funcionar como sede itinerante do movimento.

PRETÉRITO PERFEITO

 

O Teatro Paiol - um dos pontos de partida para a articulação que acabou virando o ‘Baixo Centro’ - foi aberto em novembro de 1969 pelo atores Perry Salles e Miriam Mehler. Na época, o Elevado ainda não fora construído e a região de Vila Buarque e Santa Cecília era mais segura e frequentada por um público em busca de cultura. “O centro era ótimo naquela época. Era uma região de teatros”, afirma Miriam, que hoje tem 76 anos e ainda trabalha como atriz. Na década de 80, o comando do teatro passou para Paulo Goulart, mas o espaço não resistiu à degradação dos arredores, causada em grande parte pela construção do Minhocão. Fechou no começo dos anos 1990, virou cinema pornô e hoje está à venda. Um grupo de produtores culturais, muitos deles envolvidos no ‘Baixo Centro’, quer reformar e reabrir o Paiol, com uma administração coletiva. Miriam diz que acha “fantástica” a iniciativa. “Eles são jovens, e corajosos”, afirma. Com o trabalho, o Paiol pode voltar a ser um centro de cultura da região,

como foi há 40 anos.

 

 

PRESENTE COMPLEXO

 

 

A antropóloga e cineasta Maíra Buhler lançou em 2007 o documentário Elevado 3,5 (foto). Codirigido por Maíra, João Sodré e Paulo Pastorelo, a produção apresenta a história do Minhocão e o cotidiano de alguns dos cidadãos que moram na vizinhança dos 3,5 km da construção. A ideia da produção veio durante a época de faculdade, quando ela e seus colegas de direção tinham um laboratório de fotografia na região e perceberam o potencial cinematográfico do local. Na opinião de Maíra, o Minhocão é uma cicatriz no meio da cidade: “Como obra é uma tragédia, mas sua construção desvalorizou os arredores e permitiu que pessoas que não teriam como habitar o Centro mudassem para lá”. Defensora da integração social consequente da inauguração do Elevado Presidente Costa e Silva em 1970, ela ressalta a necessidade da melhoria da qualidade de vida dos habitantes do entorno. “É preciso cuidar da área, desde que isso não seja sinônimo de exclusão de moradores ‘desagradáveis’ para o Estado e sim fruto de um diálogo democrático”, diz Maíra.

 

 

VEM DANÇAR

 

Para os organizadores do ‘Baixo Centro’, o festival (e o próprio movimento) só faz sentido se você quiser que ele aconteça - e fizer algo para torná-lo viável. Natural, portanto, que em vez de sair atrás de patrocínio junto a empresas ou de uma verba oficial, eles tenham optado pelo financiamento colaborativo. A ferramenta escolhida foi o Catarse, site brasileiro criado no começo do ano. Como o americano Kickstarter, o site mais conhecido do gênero, o Catarse permite financiar projetos bacanas com a ajuda do próprio público-alvo. Cada ideia tem 90 dias para se viabilizar. Se 100% do valor pedido não for captado, os doadores recebem seu dinheiro de volta. O Baixo Centro tem até 18/1 para levantar R$ 54.747. Abra a mão, vai: bit.ly/bcentro.

R$ 56 mil

é o valor pedido no Catarse para fazer o festival ‘Baixo Centro’. O orçamento total é de R$ 96.280 e está detalhado no site, para facilitar doações em espécie. Se um projetor for emprestado, o valor do aluguel é cortado do valor total.

 

R$ 10

é o valor mínimo para participar do financiamento. Mas há recompensas para quem doar mais: R$ 20 garante ao doador foto no site e no carrinho multimídia; R$ 50 dá direito a mais uma camiseta e ao livro ‘CulturaDigital.BR’.

 

R$ 15 mil

é o valor indicado para empresas, que prevê como contrapartida uma página exclusiva de patrocínio no site, 50 camisetas e uma performance do carrinho multimídia. Para garantir a pulverização das doações, apenas duas cotas neste valor estão disponíveis.

 

Faça +

Dinheiro não é a única forma de contribuição. Você pode doar materiais e até trabalhar. Entre em contato no Facebook ou no grupo de emails.

 

Saiba +

Quer saber mais sobre o ‘Baixo Centro’? Assista aos dois vídeos já divulgados pelos organizadores do evento: um teaser do festival e ‘as ruas são para dançar’.

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