Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Desconversa

Motorista de táxi e passageira.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2015 | 02h00

– Quente, né?

– Nem parece inverno...

– Mas acho que vai chover.

– Tá com cara...

O tempo é um assunto seguro. De todas as coisas que as duas pessoas num táxi ou lado a lado num ônibus têm indiscutivelmente em comum (ambas são seres humanos, falam a mesma língua, estão ali com um destino ou um objetivo igual e são contemporâneas) o fato de estarem experimentando as mesmas condições climáticas é a mais indiscutível de todas.

– Ontem deu uma refrescadinha.

– É verdade. Pelo fim da tarde.

– Isso.

Falar sobre futebol é arriscado. Política, nem pensar. E não ficaria bem comentarem sua humanidade comum, suas afinidades básicas como espécie. 

– Não pude deixar de observar que a senhora é uma bípede mamífera de sangue quente. Como eu.

– Que coincidência! 

Melhor falar sobre o tempo. É o assunto mais à mão, e o único com cem por cento de garantia de interessar a todos e fazer parte de uma experiência universal.

*

Mas existe outro assunto comum a toda a espécie, talvez o assunto prioritário da espécie, que só não inaugura todas as conversas porque também é o seu principal terror. A morte. Falamos do tempo para não falarmos da nossa outra afinidade óbvia, a mortalidade. Ou, talvez, quando falamos do tempo, estejamos falando sobre a morte, em código.

– Quente, né? (Você sabe que nós vamos morrer, não sabe?).

– Nem parece inverno. (Sei. Todos sabem.)

– Mas acho que vai chover. (O jeito é viver como se não soubéssemos. Você concorda?) 

– Tá com cara... (Pode ser. Seria impossível levar uma vida normal se não conseguíssemos conviver com nossa mortalidade, e acomodá-la, como uma hérnia inoperável.)

– Se chover hoje, talvez refresque de novo. (Temos é que negociar com a morte o tempo todo, como se negocia um armistício. Reconhecendo a sua vitória e o seu domínio, mas exigindo tratamento digno, como é o direito de todo prisioneiro.)

– Geralmente é assim. (Mas não se pode racionalizar com a morte. A morte está além de qualquer racionalização. A única maneira de tratar a morte é nos seus próprios termos: ignorá-la, e tentar viver como se ela não existisse, ou matá-la, com um tiro certeiro na nossa têmpora).

– Eu não aguento calor. (É o nosso corpo que nos mata. Matá-lo primeiro, francamente, me parece uma forma de colaboracionismo.)

– Eu também prefiro o frio. (Negociar com a morte significa reduzir toda a nossa vida a um pedido de clemência. Toda conversa que não é com ou sobre a morte, é desconversa.)

*

E há quem diga que toda conversa, no fundo, é sobre sexo. Outro assunto universal.

– Quente, né? (Topas?)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.