Desconstruindo uma diva

Prestes a estrear em Saramandaia, a atriz Fernanda Montenegro diz não se sentir uma estrela e gostar da vida sem luxos

JOÃO FERNANDO / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h08

Ter recebido um indicação ao Oscar, colecionar outros inúmeros prêmios na estante e carregar o título de uma das mais importantes atrizes do País são fatos que parecem não afetar o comportamento de Fernanda Montenegro. Sem histórico de ataques de estrelismo aos 83 anos de idade e mais de 60 de carreira, ela garante não agir como o clichê de uma diva.

"A gente já trabalha muito para, em cima disso, tirar castanholas e dançar uma habanera. Isso é uma ilusão. Vocês acham que o artista tem de ter um comportamento romantizado, o cara fechado numa gaiola de ouro. Imagina", desconversa ela, que continua fugindo do status de dama do teatro brasileiro. "Sou um bicho extremamente desconfiado, de maneira que, diante dessa desconfiança de tudo e todos, imagina comigo mesma. Eu me considero uma atriz. O resto é fantasia."

Preocupada com atraso para chegar ao Projac, central do estúdio de novelas da Globo, que ela voltou a frequentar para gravar o remake de Saramandaia - com estreia prevista o dia 24 -, e local onde daria uma entrevista ao Estado, na terça-feira. Parada no trânsito da Barra da Tijuca, Fernanda quis adiantar o papo pelo telefone. "Sou uma moça responsável."

Na trama, inspirada na obra homônima de Dias Gomes exibida em 1976, e hoje reescrita por Ricardo Linhares, Fernanda será Candinha, matriarca da família Rosado e mãe de Zico (José Mayer). Um de seus passatempos é conversar com galinhas imaginárias, que somente ela e o telespectador verão.

"Por acreditar na magia da vida, ela tem umas amigas que são as galinhas. Só que ela é uma peste - está sempre mandando matar alguém. No fundo, ela é uma assassina brutal. Ao mesmo tempo, uma senhorinha aparentemente simpática", define. Em vez de computação gráfica, presente em outros núcleos da novela, a atriz contracenou com animais de verdade.

"Elas são completamente baratinada e todas criativas, vão aonde querem. Tento conversar com elas, mas as galinhas têm personalidade, uma força de vontade muito grande, são artistas. Até agora, não puseram ovo, mas, em compensação, fazem titica. Eu improviso muito, tudo depende delas. Cuido, dou milho e digo: 'Se não fosse eu, vocês já teriam virado uma bela canja. Vocês são sortudas'."

No longa O Outro Lado da Rua (2004), Fernanda já havia contracenado com uma cadela. "No filme, era terrível, a cachorra só obedecia quando punham a adestradora na frente. Tenho de fazer alguma coisa com bichos obedientes, agora", analisa a artista, que cuida de um casal de canários em casa.

Se a primeira versão de Saramandaia fazia uma metáfora da ditadura militar, a atriz acredita que o remake trata de problemas atuais. "Pelo que posso sentir, é mais sobre preconceitos que nos cercam. A respeito do comportamental. Tem o lobisomem, a Dona Redonda. Acho que é sobre essa diferença que todos rejeitam", opina. Recentemente, Fernanda participou de uma campanha da prefeitura do Rio contra o preconceito e beijou a atriz Camila Amado em uma premiação, em protesto contra a permanência do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

"Atualmente, a gente luta muito contra isso publicamente. Já tivemos muitos silêncios. Ganhamos terreno ao falar, ao se posicionar", defende. Segundo ela, ainda há preconceito contra a classe artística, fato corriqueiro no início de sua carreira. "Artista não é bem-visto. Ganha um verniz se você conseguir um status econômico. Artista pobre não consegue nada. Hoje, isso alivia se der certo e vir para a televisão com um sucessinho ou sucessão", avalia.

Fernanda conta que, por causa do deslumbramento provocado pela TV, já se deparou com colegas pouco competentes em cena. "Quando não vem do teatro, é gente sem nenhum preparo. A maioria, sem exagero, ignora o que seja uma dramaturgia. Como experiência ou como leitura. No mundo da TV, como se trata de uma indústria de imagem, quem se apresenta, desde que eleito pela produção industrial, vai gravar a cena e pode repetir até acertar. Se for totalmente incapaz, nem a indústria aceita."

Dificuldades. A atriz lamenta que a força da TV não se repita no teatro ou no cinema. "A dificuldade está na distribuição, ter as salas que deixem que o boca a boca se imponha. Na primeira semana, o filme brasileiro tem de fazer um mínimo de espectadores, senão entra um longa americano já pago. Você faz cinema por amar aquele processo."

Para ela, a questão do preço dos ingressos não é suficiente para a falta de interesse. "É uma coisa engraçada no Brasil. Tudo o que é arte, é caro. Dizem que teatro, cinema, livro e jornal são caros. A cerveja não é cara, nem o cigarro. Tem teatro a R$ 3 a R$ 5. O cara se acomoda e diz que está caro. Nas temporadas populares, você não cobra nada e muita gente chega de carro. Para estacionar, paga até três vezes o valor do ingresso."

A carioca diz que o Vale Cultura tem chances de melhorar a situação. "Pode ajudar. Pelo menos, elimina-se uma grande desculpa. Acho que, no caso do teatro, é muito difícil para quem mora na periferia ter de ir ao centro, onde estão os espaços. É preciso que a gente vá até eles", sentencia a atriz, que fez apresentações da peça Viver Sem Tempos Mortos, sobre Simone de Beauvoir, em favelas e pretende retomar os espetáculo este ano.

Além de Saramandaia, Fernanda Montenegro dará expediente nas gravações de Doce Mãe, série derivada do telefilme homônimo exibido pela Globo em 2012. Por ter uma agenda atribulada, ela deu um tempo na peça em que estrearia como diretora e busca uma brecha para atuar em Do Fundo do Lado Escuro, adaptação para o cinema do espetáculo escrito por Domingos de Oliveira.

Não faltam convites para trabalho nem papéis sob medida para a atriz, que não gosta de ficar parada. "Sou uma senhorinha inquieta. É por ordem de chegada e se é interessante. Senão, não faço", explica. Ter pouco tempo para descansar, não é problema. "O cansaço é maior quando a gente faz aquilo que não gosta. Não tem sido muito pesado, não. Já fiz teatro, TV e filme ao mesmo tempo. Diante desse passado, minha vida está leve agora."

Fernanda jura que se diverte sem luxos. "A melhor coisa é fazer nada. Vou ao teatro, cinema, leio, ando na praia, viajo com meus filhos e netos e arrumo gavetas. É ótimo ficar bestando completamente, jiboiando como se diz". Dona de um smartphone, revela que não manda SMS nem tira fotos. "Básico mesmo era o fax, eu adorava. Assino, é a minha letra, se eu quiser escrever à mão. Ainda tem alguma coisa humanizada ali."

Em casa, ela costuma assistir ao Programa do Jô, telejornais e "um canal só de arte, um canal novo", que depois descobre se chamar Arte1. Um dos filmes recentes que lhe chamaram a atenção foi Amor, de Michael Haneke. A temática do casal de idosos e a relação com a morte, garante, não trouxeram lembranças ruins da perda do marido, Fernando Torres, em 2008. "Independentemente de que se tenha vivido ou não uma experiência desse campo, o filme é uma obra de arte. Na verdade, não gosto de ficar falando sobre isso. Tem uma hora que a gente tem de parar. Acho que já falei suficientemente", minimiza a artista, que, pouco depois, provocou risos ao posar para a reportagem. "Sou uma carioca deslavada. As coisas ruins, eu sei driblar e isso foi a minha terra que me deu."

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