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Ignácio de Loyola Brandão
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Descobri a inspiração do decálogo Dunga-Marin

Acabado o suplício dos debates e do horário eleitoral, vamos a coisas mais amenas, ainda que sérias. Quando li o arcaico decálogo de conduta do bom jogador da Seleção Brasileira, uma das coisas mais tolas do século XXI, quando assisto aos debates, mesas redondas, discussões sobre bola na mão, mão na bola, foi impedimento, foi gol, não foi, foi pênalti, uso ou não da tecnologia, penso que o futebol já foi menos complicado, insano. Um livrinho precioso me caiu em mãos e me diverti imensamente. Como tudo era simples quando o futebol chegou ao Brasil. Tivesse eu o talento do José Trajano, do Antero Greco, do Juca Kfouri, do PVC, do Ugo Giorgetti, do Zanin Oricchio faria uma crônica primorosa. Não tendo, conto com minhas palavrinhas.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2014 | 02h04

Abri logo nas regras da Football Associação, como foram traduzidas e implantadas no Brasil em 1906. O curioso é que sentia, ao ler, que me parecia um texto ditado pelo José Maria Marin, pela linguagem, pelas expressões, e revisado pelo Dunga e por esse Gilmar que ressuscitaram. Vejam a primeira regra, respeitando a ortografia da época: "As bandeiras collocadas em pequenas estacas são perigosas; é por isso que se recommenda uma altura minima de um metro e cincoenta. Não se devem permitir mais que quatro bandeiras, das quaes uma em cada canto. O juiz não deve permitir que qualquer bandeira seja removida mesmo que tal se pretenda fazer com o fim de facilitar o corner-kick". Há uma curiosa instrução ao juiz: "O Juiz deve advertir ao jogador que propositalmente deslocar uma bandeira de demarcação, poste de goal, ou sua barra transversal, ordenando a sua retirada do campo caso reincida." Outra recomendação: "Para que se dê um corner-kick não é necessário remover a estaca do canto".

Imaginei as traves sendo mudadas de lugar e as bandeirinhas também. A segunda regra é curiosa: "O jogo deve durar 90 minutos, salvo mutua combinação". Qual seria a combinação? Cinco vira, dez acaba? Quem não fez isso na infância? A terceira regra igualmente tem seu encanto: "Não é permitido mudar de goal antes do intervalo, o qual, a não ser com o consentimento do juiz nunca deve exceder à cinco minutos". Atenção a um importante comunicação: "Será feito um goal, quando a bola passar entre seus postes, por baixo da barra transversal, não tendo sido atirada, batida ou carregada pelas mãos de um jogador do partido que ataca." Deveriam acrescentar: a menos que o jogador se chame Maradona, a mão de Deus.

Quanto ao gol, há uma determinação rigorosa: "Si por qualquer motivo, no correr do jogo, a barra transversal for deslocada dos postes do goal, o juiz tem o direito de conceder ou não o goal, conforme julgar que a bola teria passado abaixo ou acima da barra, si ella não tivesse sido deslocada." Quer dizer que o esporte bretão, como diziam os antigos não tinha tanto fair-play assim? Os jogadores enraivecidos podiam deslocar as traves do gol?

A nona regra previa: "Não é permittido a nenhum jogador passar rasteira, dar ponta pés ou pular sobre o adversario". Em seguida, uma determinação rigorosa: "Os jogadores não poderão usar nas botinas ou nas canelleiras, pregos salientes chapas de metal ou guta-percha. Como eu, tanto quanto vocês, não tenho a mínima ideia do que é guta-percha, procurei. É a resina de uma planta da família das sapotáceas. Ficou claro? A cera já existia no inicio do futebol, tanto que uma das regras diz claramente: "O Juiz deve impedir qualquer perda de tempo inútil ou proposital".

Notável é esta instrução aos juízes: "O juiz deve notar no começo do jogo quem é o goal-keeper e não permitir que ninguém o substitua ou use das prerrogativas de seu posto, sem que de tal mudança seja avisado pela captain do team a que ele pertencer." Quem sabe fosse comum, a certa altura do jogo, alguém decidir: agora o João vai para o gol. E num jogo contra o Japão ou a China, como o juiz vai saber se mudou ou não o goleiro?

A décima regra obriga o juiz a ser um matemático, a levar uma trena para dentro do campo, ou ter bom golpe de vista: "Para que a bola possa ser considerada em jogo é necessário que dê uma volta ou ande uma distancia igual a sua circunferência". Entre as regras iniciais está a da circunferência da bola: deve variar entre 68 e 70 centímetros e pesar entre 372 e 420 gramas.

As dezessete regras estão em sua ortografia original no livro Primeiros Passes, da Editora Ludens, em parceria com a Biblioteca Mário de Andrade, que possui os volumes originais. Pequena preciosidade para os comentaristas - se é que não possuem tudo isso em suas bibliotecas. São edições fac-símiles com os anúncios da época. Agora, me digam: os textos não têm mesmo linguagem do decálogo Dunga-Marin?

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