Descobertos únicos poemas de Antonio Callado

Um presente inusitado acaba de ser incorporado à exposição em homenagem a Antonio Callado, na Academia Brasileira de Letras: dois jornais com poemas do escritor aos 16 anos de idade. Os jornais foram doados a Ana Arruda, viúva de Callado, por um amigo de escola dele, Jessé Peixoto, de 83 anos. Os exemplares de O Ensaio- publicação do colégio Bittencourt Silva, em Niterói, onde o escritor estudou na adolescência - datam de 1933 e 1934. A jornalista Ana Arruda disse desconhecer qualquer outro poema do escritor. "Eu nunca havia visto uma poesia dele. Estou surpresa e muito grata", disse Ana.O engenheiro Jessé Peixoto conta que Callado, desde àquela época, já estava inclinado à carreira literária e era o secretário do jornal do colégio. "Ele sempre se destacou nessa área, tanto que foi o orador da nossa formatura". Nunca se havia ouvido falar em qualquer publicação poética do escritor de Quarup. Há, nestas publicações, dois poemas, sendo um deles em homenagem a um poeta e amigo de colégio do escritor. Peixoto confirma a fama de elegante de Callado: Nelson Rodriges dizia que ele era o único inglês na vida real. "Ele era um rapaz muito cordial, com uma atitude digna", diz Peixoto.A exposição Antonio Callado: o doce radical foi inaugurada agora à tarde na ABL. Parentes e amigos e convidados ilustres, como o ator José Lewgoy, o Secretário Estadual de Cultura, Adriano de Aquino, os acadêmicos Celso Furtado, Arnaldo Niskier e Antônio Olinto estavam presentes. A exposição é formada por 32 painéis sobre a vida do escritor e temas que ele abordou em suas obras, como a questão da marginalização do negro, dos direitos indígenas, da reforma agrária e a fome no País. Ainda não houve como incorporar ao acervo os dois exemplares com os poemas, somente um está em exposição. Segundo a curadoria, em breve o público poderá ver de perto os dois poemas inéditos.Tu e o meu versoEu quero que te vejas no meu verso Com perfeição serena refletida Como a andorinha que no lago imersa Vê, gracioso, o seu vôo de partidaEu quero que na vida tu respires O teu perfume a se evolar divino E que se acaso a um verso meu sorrires Vejas que o verso... é o teu sorriso finoQuero que a esbelta curva do teu talhe Esteja na grácil curva do soneto; E que, sublime no último terceto, presa das rimas do custoso entalhe Vejas com doce espanto fulgurar A cristalização do teu olharAntonio Carlos Callado, Jornal O Ensaio, nº29, 1934

Agencia Estado,

31 de agosto de 2000 | 22h12

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