Descobertas reais

Ana Maria Machado usa a magia dos contos de fadas para falar de escolhas e insatisfação

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

Toda criança sabe que príncipes e princesas moram em castelos, têm aulas com os melhores professores do reino e são preparados para um dia assumirem o trono. O que poucas imaginam é o descontentamento que ronda a vida desses nobres. Afinal, viver sob regras rígidas de comportamento, ser obrigado a concordar com tudo e não poder expressar a própria opinião não deve lá ser muito agradável.

Em A Princesa Que Escolhia e O Príncipe Que Bocejava, relançados pela Alfaguara, a escritora Ana Maria Machado usa a estrutura do conto de fadas para falar de insatisfação, descobertas e escolhas, misturando a magia das histórias clássicas com referências contemporâneas.

Com ilustrações de Mariana Massarani, A Princesa Que Escolhia narra a vida de uma princesa excessivamente boazinha e bem-comportada que um dia surpreende a todos ao dizer "não". "O livro é uma brincadeira tardia que nasceu de algo que eu sempre disse aos meus filhos: 'Você não precisa fazer isso só porque todo mundo faz. É só dizer que não quer'. Não precisa namorar quem você não quer só porque os outros acham o máximo, concordar sempre com os adultos, mesmo que sejam os professores, falar bem ou mal do governo só porque todo mundo está falando", conta.

Na história, o rei fica furioso e manda trancar a filha na torre. Mas, ao contrário do que imaginava o pai, o castigo é libertador. Do alto da torre, completamente isolada do castelo, a princesa se depara com uma biblioteca e um jardim fechado e descobre um mundo desconhecido: para além dos muros e dentro de si.

Descoberta semelhante é feita pelo personagem principal de O Príncipe Que Bocejava, ilustrado por Taline Schubach. Aqui, um príncipe aprende desde cedo que não pode se esconder atrás das cortinas do salão do palácio nem patinar ou andar de skate pelos corredores. Ele é ensinado a ficar quieto em desfiles, estuda economia e história e sempre tem, em seu computador, programas de última geração. Adora ler e sabe poemas de cor.

Um dia, o rei e a rainha decidem que é hora de o filho se casar e, para ajudá-lo a escolher uma noiva, organizam um grande baile, com princesas encantadoras vindas de todo canto. Mas, logo que o rapaz começa a conversar com uma pretendente, algo desagradável acontece. Por mais que ele tentasse, era impossível disfarçar o bocejo.

O príncipe se esforça, em vão. Os pais das princesas ficam zangados, ofendidos. A situação é tratada como um "incidente diplomático". Em outra ocasião, o nobre tenta novamente conversar com as candidatas, e o bocejo reaparece. Ele não podia nem pensar em princesas.

Abatido, o príncipe declara que não quer mais saber de pretendentes e decide viajar. Ele se disfarça e sai de moto pelas estradas, livre. Ao pegar um trem, se depara com uma moça na janela debruçada em um livro, com os olhos arregalados. Juntos, os dois descobrem livros e lugares, personagens e cidades.

Enquanto a descoberta do príncipe acontece fora do castelo, a da princesa se dá na torre. Lá, a menina conhece flores, passarinhos, minhocas e os filhos do jardineiro, de quem fica amiga e compartilha livros e um computador com acesso à internet.

Um dia, a garota vê na televisão que o reino enfrenta uma epidemia desconhecida. Ela chama o pai e diz saber a causa da doença e como salvar os súditos. O rei segue os conselhos da filha e, satisfeito, dá o castigo por encerrado. Como prêmio, sugere comprar uma nova coroa. Mas a princesa pede outra coisa: poder escolher. "Escolher tudo. Poder dizer sim ou não, sempre."

Autora de mais de cem livros, Ana Maria - que recebeu, entre os inúmeros prêmios ao longo da carreira, o Hans Christian Andersen, o Oscar para autores de livros infantis - continua fazendo as crianças se apaixonarem por seus personagens, como em Bisa Bia, Bisa Bel, História Meio ao Contrário e Raul da Ferrugem Azul, entre muitos outros.

"O que todo leitor quer, independentemente da idade, é vivenciar novas experiências a partir de seus próprios medos, desejos, aflições e carências. E que isso seja feito de forma instigante, divertida, inteligente, que dê prazer na descoberta dos outros ou na constatação das semelhanças do personagem consigo mesmo", diz a escritora.

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