Descoberta da América

Famoso pelas fotos de guerra, Robert Doisneau também clicou a paz, como revelam inéditas imagens de Palm Springs

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Ao longo de sua história recente, Paris vem sendo imortalizada pela arte como poucas metrópoles já o foram. Robert Doisneau (1912-1994), o fotógrafo que celebrizou o romantismo da capital francesa no retrato Le Baiser à L"Hotel de Ville, é autor de um desses ícones - por certo um dos que mais bem captaram o espírito de liberdade da Europa após a liberação do nazismo, no século 20. Mas sua obra é muito mais rica do que o flagrante de um beijo apaixonado à frente de um café parisiense. E uma das provas dessa afirmação será exibida na mostra Palm Springs, um inédito apanhado de fotos em cores sobre o "sonho americano", que estará em cartaz na Galeria Claude Bernard, em Paris, entre 1º de abril e 29 de junho.

Formado em artes gráficas na Escola Superior de Artes e Indústrias Gráficas, uma das mais tradicionais da Europa, Doisneau trazia entre as mãos não apenas o domínio técnico apuradíssimo das lentes, mas também uma formação artística e intelectual.

Ao lado de Willy Ronis e Edouard Boubat, Doisneau ajudou a forjar um estilo que ficaria conhecido como "fotografia humanista", gênero com o qual flertaram outros mestres, como Henri Cartier-Bresson. À frente de suas objetivas, desfilavam meninos e meninas, amantes, operários, artesãos, vagabundos. Mas, sobretudo, elas captavam a nostalgia, o romantismo, o afeto, a ironia, a informalidade da vida real em Paris, de sua periferia ou da província da França, que começava a viver seus 30 anos gloriosos. Imagens sempre marcadas por jogos de luzes e sombras, acentuados pelo contraste entre o preto e o branco.

Pós-guerra. Uma lógica diversa da imagem internacional que Doisneau construiu é o que a exposição na Galeria Claude Bernard revelará. Superada a guerra, o ex-fotógrafo industrial das fábricas da Renault, já um dos destaques da agência Rapho, contava com clientes do gabarito de Paris Match, Point de Vue, Réalités, Regards e La Vie Ouvrière, na França, mas também expandia seu mercado de trabalho para publicações dos Estados Unidos, como Life e Vogue. Por meio dessas revistas, já havia se tornado reconhecido na América, e suas fotos circulavam em exposições de peso, como a realizada em 1952 no Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York.

Mas só em 1960 uma dessas grifes norte-americanas, a Fortune, convidou-o para atravessar pela primeira vez o Atlântico. O objetivo: registrar outro modo de viver - em muitos aspectos antagônico ao francês - que se consolidava, o american dream. Contratado para ilustrar a reportagem Palm Springs: Green and Playful Grows the Desert, publicada em fevereiro de 1961, Doisneau deveria debruçar-se sobre os novos campos de golfe construídos no deserto do Colorado e frequentados pela profusão de milionários emergentes de todo o país.

Talvez movido pela curiosidade e pelo choque cultural, Doisneau manuseou suas lentes Rolleiflex, Leica e Hasselblad para ir bem além. Na breve passagem pelos Estados Unidos, iniciada em 19 de novembro de 1960 e encerrada em meados de dezembro, o francês desvendou Palms Springs - nas entranhas dos EUA -, mas também Los Angeles e Nova York, antes de retornar a Paris. Ao término de sua jornada, deixou nas gavetas da Fortune o seu olhar sobre a América.

Redescoberta. Os originais não utilizados na reportagem acabaram perdidos em arquivos até 2007, quando foram redescobertos e devolvidos à família de Doisneau por Scott Thode, diretor de Fotografia da Fortune. Esses clichês, reorganizados e documentados, darão origem a um livro, Palm Springs 1960 (editora Flammarion), cujo lançamento está previsto para o dia 31, em Paris. Para celebrá-lo, será montada a exposição na galeria fundada em 1957 por Claude Bernard e vocacionada para a arte figurativa contemporânea.

"O projeto envolve negativos perdidos havia muito tempo, que nunca foram explorados em uma mostra e são totalmente inéditos do grande público", garantiu ao Estado Elizabeth Mabin, uma das diretoras da galeria. A mostra, de fato, é preciosa por várias razões, entre as quais por se tratar de fotografias jamais publicadas, claro. Outra, por trazer uma perspectiva estética nova: as imagens, coloridas, são exceção na obra de 450 mil negativos do autor.

Em Palm Springs, Doisneau deixou a Paris de seus clichês em p&b para surpreender em um jogo de cores suaves, com o qual revela a doçura do sonho americano, que impregnava móveis, casas, carros e roupas, mas também o espírito das classes média e alta dos Estados Unidos dos anos 60. Bem além do contraste entre a grama verde plantada sobre o deserto, Doisneau demonstrava impressionar-se com a paisagem radicalmente diferente da europeia, mas também com a artificialidade de uma América selvagem ainda em construção.

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