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Descarnavalizados

Quando o carnaval vier, e ele virá, será a farra dos nossos corpos distraídos outra vez. Sem medo. Sem corona

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2020 | 11h32

O plano era te encontrar no carnaval. Em um bloco aqui do bairro, com latinha de cerveja na mão (esquentando) e serpentina enrolada no pescoço. Meu plano era levantar os dedinhos para o céu, como um gringo em êxtase. Era pegar a fila do banheiro químico sem perder o pique. Era me engasgar de confete e acordar nos seus braços. O plano era atravessar o deserto do seu Saara e lá, meu bem, Allah-lá-ô.

O plano era beijo na boca. Era aglomerar. Tomar pisão no pé. E ouvir o tiozinho gritar ‘olha o pesado’. Era shot de catuaba. Shot de cachaça. Shot de shot do shot de algo que eu não conseguisse identificar pelo sabor ou cor. Meu plano era passar vergonha em público. 

O plano era uma fantasia de ema vingativa, esmagando caixinhas de hidroxicloroquina. Ou de vacina chinesa. Ou ainda de menino da bolha (isolado e de máscara). O plano era extravasar, exorcizar e cair na gandaia em um carnaval pós-apocalíptico e sem covid.

Mas alto lá, não é pra já. Bora parar, parou! A bateria entrou no recuo. Pintou buraco na avenida. E a harmonia? Foi-se. O carnaval está oficialmente adiado em São Paulo.

Cidade que já foi o túmulo do samba. Cidade de uma gente que já foi acusada de não ter cintura, ginga ou borogodó. Essa cidade quedou-se acabrunhada, desacorçoada, dichavada e descarnavalizada.

O carnaval ficou pra depois. Esquece fevereiro, esquece março. Quiçá, pinta folia em maio – se o deus agitado da folia e a ciência permitirem. Seja quando for, será quando o desmancha prazer nos deixar. Quando nos livrarmos dessa quarta-feira de cinzas prolongada, espraiada em nossas vidas 

Até lá, tenho meus novos planos. Vou aprender a tocar um batuque qualquer. Vou aprender a sambar, vou fazer uma marchinha sacana, boba e política. Vou confeccionar uma fantasia de puro deboche. O deboche é uma arma quente. 

Quando o carnaval vier, e ele virá, será a farra dos nossos corpos distraídos outra vez. Sem medo. Sem corona (só a coroa do Rei Momo). Será o direito de respirar, de braços abertos, no meio da rua. Vai ser festa. Vai ser vida em abundância e fartura. Será vida feita pra gastar na rua. A gente precisa disso. A gente precisa dessa bandeira branca, amor. 

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