Desavenças no trânsito

"Você me acha ciumenta?"

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h12

"Não."

"Nada?"

"Nem um pouco."

"Não combinamos que sempre falaríamos a verdade?"

"Combinamos?"

"Não tenho certeza. Mas não seria bom pro casamento?"

"Uma mentirinha inocente não faz mal a ninguém."

"Então me acha."

"O quê?"

"Um pouco."

"Ciumenta? Normal."

"Normal quanto?"

"Como assim? Numa escala? De zero a dez?"

"Muito ou pouco?"

"Por que isso, agora? Aconteceu alguma coisa que não estou sabendo?"

"Nada."

"Tinha alguém no bar me olhando, alguém disse alguma coisa?"

"Por que, tinha alguém no bar te olhando?"

"Não reparei."

"Alguém disse alguma coisa?"

"Disse?"

"A velha tática de responder perguntando?"

"Contra a velha tática de jogar verde para colher maduro."

"Para?"

"Boa pergunta. Me sinto um criminoso. Para o quê?"

Entram no carro. Ela dá a partida. Ele, com a carteira suspensa, vai como passageiro. Encaixam o cinto. Ela liga o pisca e, antes de sair da vaga, retoma o que ele achava superado.

"Para saber se você me acha ciumenta."

"Ciúmes é que nem barata. Não cura nada, não alimenta. Vamos tentar manter nossa relação longe desta praga."

"Tá vendo, então acha!"

"Acabou de passar um farol vermelho."

"Sou ciumenta, que droga!"

"Relaxa."

"Estou me desabafando!"

"Cuidado com a moto."

"Eu sei o que estou fazendo?"

"Por que a irritação, agora?"

"Porque eu sei que eu sou muito ciumenta."

"É nada."

"Sou! E é uma droga isso!" E grita: "Sai da frente!"

"Amor, era faixa de pedestres."

"Sempre atravessam quando quero passar?!"

"É normal ter ciúmes."

"Vou ficar louca."

"Vai?"

"Vou xeretar seu e-mail, seu celular, sua carteira, contas bancárias, vou mandar te seguir, grampear seu celular. E eu não quero isso. Então, melhor me dizer agora toda a verdade."

"Que verdade?"

Ela estaciona o carro e desliga. Acende um cigarro. Traga como se participasse de um a gincana de bêbados. Ficam mudos por um tempo. Ele espera, até dizer:

"Não é perigoso ficar parado aqui a esta hora?"

"A Joana."

"O que tem a Joana?"

"Tenho ciúmes dela."

"Da Joana?! Mas... Já te disse milhões de vezes, fomos colegas na faculdade, é minha amiga, minha única amiga daquela época. Você acha que não existe a possibilidade de amizade entre um homem e uma mulher? Você tem amigos homens. Vários. Ela é minha única amiga mulher."

"Ela faz questão de me esnobar, contar coisas suas que não conheço, rir de piadas que só vocês dois entendem."

"Lógico! Eu conheço ela há muito mais tempo que você."

"Isso que me desespera. Ela sabe de você mais do que eu."

"Claro."

"Por que ela sempre me provoca?"

"Sei lá."

"Vai ver não gosta de mim."

"Vai ver não gosta de você."

"Tá vendo?!"

Ela joga o cigarro com raiva pela janela e liga o carro, o pisca, sai e acelera. Passa por outro farol vermelho e quase atropela outro motoboy.

"Por que não gosta de mim, eu não sou fofa?"

"Cuidado, o ônibus!"

"Desisti de ser legal com ela."

"Isso mesmo, é uma idiota, sempre te provocando. Ela faz isso sempre."

"Faz?"

"É, adora fingir que conhece segredos da minha vida que só ela sabe."

"Você também reparou?"

"Claro. Fora que usa roupas apertadas, fica ridícula com aquela banha saindo pra fora da calça..."

"Ridícula!"

Ela diminui a velocidade.

"E o hálito de cigarro? Ridícula! Isso, amor, ali tem radar."

"Eu sei."

"Pode ir até um pouco mais rápido."

"Não é 40?"

"Acho que é 60."

"Na dúvida, melhor ir a 40."

"Beleza."

Ambos checam a velocidade em que passam, marcada no totem: 30 km/h.

"Ah, ela é divertida."

"Joana?! Que nada. Vou cortar as relações totalmente. Cansei de ver ela te esnobando."

"Tadinha. É o jeito dela."

"É?"

"Insegurança."

"Mas você não fica chateada? Não quero que nada nos atrapalhe."

"Normal ter ciuminho, vai dizer que você não tem."

"Evito."

"Ciúmes não se evita. Só os mortos não o sentem. Hoje mesmo. No bar. Ele me piscou."

"Mas aquele era o Edmundo!"

"E daí? Não conta? Ele bem que ficou me olhando."

"Olhando pra lente da câmera. Eu que pedi para você tirar uma foto minha com ele. Vou ter ciúmes?"

"E o sorrisinho?"

"Você queria que ele fizesse uma cara feia? Logo o Edmundo... O Animal?!"

"Bem. Ele é gato. E aquelas pernas..."

"Deu tempo para você olhar as pernas dele?!"

"Ele estava de bermudas. Todas estavam olhando as pernas dele. E pra bunda."

"Passa este carro logo."

"Nenhum ciuminho? Olha a foto dele aí no celular."

"O cara jogou em todos os times, nem sou tão fã."

"Por que então me pediu para tirar a foto?"

"Inércia." Olha a foto: "É, um sorriso, diferente..."

"Não disse?"

"Passa este carro! Sai da frente, seu cego, sai de casa por quê?!"

"Ele me xavecou de leve."

"O cara daquele caminhão me xingou?! Emparelha!"

"Repare na foto."

"Passa ele e para o carro! O que foi, palhaço?! Vai encarar?!"

"É, amor, você tem razão. Olhando bem... Foi um sorriso burocrático."

"Ah, fugiu, né? Desgraçado!"

"Piscou de agradecimento. Vou apagar esta foto."

"Do que a gente tava falando?"

"Ih. A Joana mandou uma mensagem. Que fofa..."

"O que ela quer?"

"Perguntou se você ficou com ciúmes do Edmundo."

"Vaca!"

 

 

E-mail: marcelo.rubens.paiva@estadao.com.br

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