Desatenção

O mundo ainda pode lhe reservar boas surpresas. Aconteceu comigo

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 03h00

Um dos prazeres de continuar vivo é que você nunca está longe de encontrar um novo prazer. Ou descobrir um novo prazer que, por alguma razão, lhe tenha escapado. Depois de um certo tempo de vida, você pode concluir que já experimentou tudo o que havia para experimentar no mundo, dentro dos limites da higiene e do código penal. Mas espere, não se precipite. O mundo ainda pode lhe reservar boas surpresas. Aconteceu comigo.

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Eu sabia da existência de um saxofonista americano chamado Art Pepper, mas nunca tinha prestado muita atenção no cara. Talvez a devoção ao Charlie Parker me impedisse de conceber qualquer outro alto saxofonista no panteão particular de jazzistas que mantenho e raramente abro. Não me lembro quando foi a revelação de que Pepper era melhor do que eu pensava, quase tão bom quanto Parker. O chamavam de “Charlie Parker branco” porque seus estilos e seus improvisos eram parecidos. E sua vida pessoal também: Pepper, como Parker, passou muito tempo internado para curar a dependência em heroína, que nunca o largou. Morreu em 1982, com 57 anos.

Tenho ouvido muito Art Pepper. Para compensar os anos de desatenção.

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Você conhece um samba do Cartola chamado Autonomia? Um que tem o verso “escravizaram assim meu pobre coração, é necessária nova abolição, para trazer de volta minha liberdade”? Eu também não conhecia, até ouvir a melodia num CD (lembra CD?) do Rildo Hora na gaitinha de boca com o Romero Lubambo no violão. Achei a música tão bonita que saí atrás da letra. Não foi difícil encontrá-la, muita gente gravou Autonomia, minha ignorância não era compartilhada, ela também se devia apenas à desatenção. Mas gosto de pensar que existem composições originais do Cartola rolando por aí, esperando para serem descobertas e nos encherem de prazer tardio.

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De Cartola para Jesus Cristo. Há dias o Estadão publicou um texto do Gilles Lapouge sobre Jesus, do qual me aproprio de um trecho. “Igual a outros criadores de uma religião, como Buda, ou pensadores como Sócrates, Jesus jamais escreveu, o que durante muitos anos eu deplorei”, escreve Lapouge, um apreciador dos Evangelhos apócrifos que não figuram no Novo Testamento. Segundo Lapouge, os textos apócrifos são muitas vezes surrealistas, iconoclastas e poéticos. “Um deles conta uma história: Jesus estava com seus discípulos no deserto, a noite chegando, e pegou um bastão. Traçou letras na areia. Os discípulos, boquiabertos, tentaram ler o que Jesus escrevera. Neste momento o vento do deserto bateu e apagou as letras, as palavras. Que vento era esse? O Evangelho apócrifo não diz. Imagino que era o Santo Espírito, vigilante”. 

Que vento vigilante era esse que apagou as palavras do Cristo antes que qualquer um pudesse lê-las? Era o Santo Espírito decretando que a pregação desse Messias seria em outra linguagem, inédita, irracional, não literária? Era um vento em vigília permanente contra a deturpação da mensagem do Cristo por palavras riscadas? Era o primeiro “delete” da História? Ou a possibilidade mais fascinante de todas, o vento do deserto foi o primeiro crítico? De qualquer maneira, os discípulos perderam a oportunidade de ler Jesus. Mais um caso de desatenção.

Tchau. Vou tirar férias. Também sou um, vá lá, enteado de Deus. Volto dia 27/10, se não mudarem as fechaduras. Tchau. 

 

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