'Desassossego' discute a identidade de uma geração

Pode ser que a melhor coisa de "Desassossego" seja o próprio título do filme que estreia amanhã. Desassossego, segundo o dicionário, quer dizer inquietação, agitação, ansiedade. Essa última carrega um componente talvez negativo, mas a inquietação e a agitação podem reverter em mudanças, transformações. Some-se a isso o subtítulo - "O Filme das Maravilhas". O desassossego reverte em maravilha. Temos aí, quem sabe, uma metáfora do próprio cinema. Do projeto da distribuidora Vitrine.

LUIZ CARLOS MERTEN, Agência Estado

23 de setembro de 2011 | 08h57

Desde que surgiu, a Vitrine tem colocado nas telas o cinema dos jovens realizadores, as novas propostas estéticas, o desassossego autoral. E tudo isso tem produzido filmes maravilhosos como "Estrada para Ythaca", do coletivo Pretti/Parente, ou "Além da Estrada", de Charly Braun. A estrada tem estado em pauta no projeto da Vitrine. Estrada da vida? Do cinema?

Gustavo Bragança foi o artífice de "Desassossego". Com Marina Meliande, é o diretor de "A Alegria". Com todas as especificidades que tem aquele filme, ele dialoga com outros títulos da produção recente brasileira e que também colocam na tela a juventude dos anos 2000. "Em comum, acho que temos o desejo de lançar um olhar sobre questões da formação de identidade de uma geração crescida de 1992 para cá - num país e numa perspectiva planetária de utopias rarefeitas e referenciais políticos amenizados. Em A Alegria, especificamente" - ele dizia numa entrevista na época do lançamento -, "a ideia se dá dentro e através da cidade na qual os personagens vivem, habitam e se desenvolvem."

Na origem de "Desassossego", está "O Livro do Desassossego", do poeta português Fernando Pessoa. O livro reúne hoje cerca de 50 textos, dos quais apenas 12 foram publicados pelo próprio Pessoa. Até hoje se discutem a questão da autoria e os critérios para a reunião dos textos. Interessava a Bragança trabalhar a fragmentação que está na essência de "Desassossego", mas o filme também dialoga com outro lançamento da Vitrine, "Pacific", de Marcelo Pedroso. Quando "Desassossego" surgiu como projeto, Bragança ainda não conhecia o filme pernambucano, mas ambos terminam trabalhando sobre imagens colhidas por outros.

Bragança baseou-se num bilhete encontrado no armário de uma adolescente, Luiza. Ela virou a personagem emblemática de "A Alegria", que ele fez em parceria com Marina Meliande. O bilhete virou a carta-manifesto que Bragança enviou a 14 diretores, convidando-os a expressar seu desassossego. Surgiram esses fragmentos de cinema para falar de amor, aventura e utopia nos dias de hoje. Como ele diz - a ideia nunca foi fazer um filme em episódios, mas criar um fluxo contínuo a partir dos fragmentos filmados e que os diretores selecionados iam enviando.

Bragança, Marina e também Ivo Lopes Araújo, Marco Dutra, Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Raphael Mesquita, Leonardo Levis, Andrea Capella, Carolina Durão, Helvécio Marins, Clarissa Campolina. Todos eles e mais Karim Aïnouz, o diretor de "Madame Satã", "O Céu de Suely" e "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", que, rapidamente, se converteu no emblema de um cinema que, sem deixar de ser autoral - e até radicalizando a autoria -, é também pop. O novo Karim Aïnouz, lançado no Festival de Cannes, em maio, chama-se "Abismo Prateado" e inspira-se em canções de Roberto Carlos. O rei tem feito obra de sutileza, cantando o desassossego de amor e sexo dos brasileiros há décadas. E ele o faz por meio de uma doce subversão dos padrões comportamentais.

Quais são as histórias - os fragmentos - do "Filme das Maravilhas"? Marco Dutra e Juliana Rojas enviaram um filme de 40 minutos, Karim Aïnouz enviava o material que ia filmando, em São Paulo como em Berlim, onde se estabeleceu para desenvolver outro projeto. O desafio era sempre chegar ao ?ápice do sonho?, ao fragmento capaz de se integrar na utopia de "Desassossego", no processo que Bragança roteirizou e Marina montou. Ambos se tornaram conhecidos graças à trilogia de "A Fuga da Mulher Gorila", "A Alegria" e, agora, "Desassossego". E tudo ocorreu rapidamente. "O Filme das Maravilhas" tem a cara da Vitrine e no novo cinema autoral brasileiro. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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