"Desaparecidas" com Cate Blanchet, só em DVD

Suíte de um hotel de luxo em Manhattan. Ron Howard está preocupado com a acolhida para seu western Missing. Quer saber do repórter do Estado quais serão as chances do filme no Brasil, onde virou Desaparecidas. Essa entrevista realizou-se no fim do ano passado. Havia a expectativa de que Cate Blanchett ganhasse uma indicação para o Oscar. Poderia ajudar o filme. A indicação não saiu. Desaparecidas fracassou nas bilheterias americanas. No Brasil, o lançamento nos cinemas foi sendo adiado e só agora o filme pode ser conferido nas locadoras. Quando Ron Howard bateu pé que queria fazer Desaparecidas, seu produtor, Brian Glazer, ainda tentou dissuadi-lo. Os westerns, que já foram um gênero dominante da produção americana, viraram venenos de bilheteria. O público jovem adora efeitos especiais e não tem mais paciência para os relatos sobre o o Velho Oeste, ainda mais um como esse, que mistura elementos de suspense e gângsteres para falar de família. No fim, Brian Glazer concordou com o parceiro. Ganharam tanto dinheiro juntos, em tantos êxitos, que conseguiriam sobreviver ao eventual fracasso de Desaparecidas. A apreensão de Howard e, depois, seu desapontamento, quando o filme passou no Festival de Berlim, em fevereiro, não foram pelo dinheiro perdido, mas pela falta de apoio do público para uma história que ele quis, tão ardentemente, contar. "Conto histórias que gostaria de ver na tela, como espectador", definiu o diretor. A de Missing seduziu-o desde que leu o script. É curioso como esse título - Missing - é o mesmo do filme que Costa-Gavras fez, no começo dos anos 1980, para discutir a participação americana no golpe militar que derrubou Salvador Allende, no Chile. Aquele Missing ficou sendo O Desaparecido, Um Grande Mistério, ao ser lançado no País. As Desaparecidas de Ron Howard são as filhas de Cate Blanchett, seqüestradas por renegados índios. Na tentativa de resgatá-las, Cate chama o pai, um guia mestiço de quem esteve sempre afastada. A relação é marcada por sentimentos extremos de amor e mágoa. E está formado o quadro para um western intimista, o que não deixa de ser paradoxal, pois é carregado de ação, violência e suspense. Fãs de westerns não terão maiores dificuldades para lançar pontes entre o western de Ron Howard e outros dirigidos por Anthony Mann (O Preço de Um Homem), John Ford (Rastros de Ódio) e Robert Mulligan (A Noite da Emboscada). De Ford, vem o tema do seqüestro das garotas brancas. De Mulligan, a fusão de gêneros e a presença desse chefe que deixa um rastro de destruição. De Mann, o fundo psicanalítico - as fúrias familiares - e a importância conferida à paisagem. "Nunca tive tantos problemas para encontrar a paisagem certa para um filme, mas sem esse cenário áspero a violência da história não seria verdadeira", disse o diretor. Howard ama westerns desde que, garoto, foi ator de um western hoje clássico de Don Siegel - O Último Pistoleiro, com John Wayne como o velho mocinho que morre de câncer. Ele admitiu para o repórter que não conhecia os westerns de Mann e Mulligan. Disse que não poderia fazer cinema se não conhecesse o de Ford. Desaparecidas é um bom filme, melhor do que Mente Brilhante, que ganhou o Oscar e rendeu uma fortuna para Howard e Glazer. Cate Blanchett é mais do que boa - é excepcional na sua estréia no western.Desaparecidas (Missing) - EUA, 2003. Direção de Ron howard. Vídeo e DVD da Columbia, só para locação.

Agencia Estado,

06 de agosto de 2004 | 15h56

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