Paulo Dias/Divulgação
Paulo Dias/Divulgação

Desafios e prazeres de Bach

A violinista Betina Stegman abre ciclo ao longo da qual vai interpretar peças do compositor

O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2012 | 03h08

Música de câmara é comunhão, integração de sensibilidades de músicos e plateia, em prazerosa busca dos sons conhecidos mas também daqueles que, inéditos para nossos ouvidos, revelam-se autênticas iluminações. Não por acaso, Theodor Adorno atribui ao gênero camerístico condição privilegiada: é nele que as músicas novas surgem, este é um mundo no qual criadores intérpretes testam-se sem limites.

Se você quiser curtir música de câmara pra valer, esqueça os grandes teatros. Modernamente, as enormes salas de concerto, todas surgidas no romântico século 19 para atrair grande público, rejeitam o gênero em sua própria concepção arquitetônica.

A boa notícia é que existem em São Paulo outros palcos. Você entra no Cachuera, nas Perdizes, e logo vê que está num estúdio de gravação. A profusão de madeira, as sessenta cadeiras, a visão do órgão de tubos e do belo cravo bem próximos de você, espectador, estabelecem logo a sensação de intimidade fundamental para uma boa noitada de música de câmara.

Foi lá que a violinista Betina Stegman iniciou, na quinta-feira, um ciclo de concertos com obras de Bach para violino solo e acompanhamento de cravo, que se estenderá, em concertos mensais, até junho. Quando soam as primeiras notas do seu instrumento na Sonata I em Sol Menor para Violino Solo BWV 1001, você não acredita. O som poderoso te envolve inteiramente, invade a sala inteira. O instrumento mostra todas as suas armas e o intérprete se desnuda diante do público. Cada harmônico fora do lugar, cada esbarrão, por menor que seja, também se amplifica. Teste duro, duríssimo. Ainda mais que nesta sonata Bach desafia os limites físicos do instrumento: melódico por natureza, o compositor lhe imprime uma escrita polifônica, escreve até uma fuga diabolicamente difícil onde as vozes multiplicam-se nas quatro cordas do violino.

Você, ali, bem pertinho, ouve a magnífica música de Bach e compartilha com a violinista a sensação de risco que envolve sua aventura. A temperatura de alto risco cai um pouco quando o cravista Sérgio Carvalho a acompanha na Sonata I em Si Menor BWV 1014 (o Adagio inicial foi daqueles raros momentos de intensa, notável musicalidade). Betina já estava plenamente aquecida quando enfrentou a Partita I em Si Menor para Violino Solo BWV 1002. Bach também ajudou, porque a partita não é tão polifônica na escrita. Ela fez uma Courante sensacional - e teve pequenos deslizes na conhecidíssima Bourrée final.

Aplausos finais frenéticos, proporcionais ao seu desafio, que inclui pedreiras ainda maiores nos próximos meses, como a célebre Chacona da Partita nº 2. Rapidamente a sala transformou-se num bate-papo coletivo, com os músicos misturando-se aos demais. Uma taça de vinho esquentou as conversas. E todos foram para casa leves, levíssimos, depois de uma experiência musical excepcionalmente prazerosa.

No caminho até o estacionamento, e ainda com Bach bailando nos ouvidos, entendi por que a música de câmara historicamente é o laboratório privilegiado de experimentação para os compositores. E por que se renova sempre, ao longo dos séculos, o interesse dos músicos na sua prática, pois nela alia-se o aprendizado de novas técnicas ao prazer de fazer música em pequenos grupos. Sem dúvida, um círculo virtuoso, que se completa nos concertos em espaços adequados.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Tudo o que sabemos sobre:
músicabetina-stegmanbach

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.