Desafio da vitrine literária

Organizar um pavilhão competente e sem exageros é uma das missões do Brasil na Feira de Frankfurt de 2013

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2011 | 03h06

O visitante que chega ao pavilhão dedicado à Islândia, país homenageado este ano da 63.ª Feira do Livro de Frankfurt, surpreende-se, logo na entrada, com um imenso telão que projeta a imagem de uma mulher sentada em um sofá, lendo um livro. O silêncio impera, mas, de repente, ela começa a ler em voz alta. "Os primeiros leitores que atraímos para esse espaço foram justamente os islandeses", explica Halldór Gudmundsson, diretor da exposição. "Fizemos um concurso em que diversos habitantes da ilha enviaram fotos posando com sua biblioteca particular. As melhores estão expostas aqui e, com alguns, fizemos um vídeo em que leem trechos de sua obra islandesa preferida."

Entre a ostentação da Coreia do Sul em 2005 e a duvidosa mistura de estilos literários e futebolísticos da Argentina no ano passado, passando pela austeridade chinesa de 2009, o pavilhão do país homenageado em Frankfurt é mais que um cartão de visita para o mercado internacional: ali está a delineada a seriedade com que a nação se vê diante do mundo. Algo como o perfil da própria alma.

Confirmado como o homenageado de 2013 (no próximo ano, será a vez da Nova Zelândia), o Brasil terá uma preparação detalhada, como garante Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), entidade oficialmente escolhida pelo governo para cuidar da organização. "Se o futebol terá sua Copa do Mundo em 2014, a da literatura brasileira será um ano antes, aqui em Frankfurt", disse ele ontem, em apresentação a editores estrangeiros. A intenção é deixar uma melhor impressão que a de 1994, quando o estande nacional foi alvo de críticas especialmente por conta de uma excessiva folclorização.

Culturas. Segundo Galeno, a organização do pavilhão ficará por conta da Funarte - seu presidente, Antonio Grassi, esteve em Frankfurt onde, ao lado do comandante da FBN, contatou museus, teatros e outros espaços que deverão receber apresentações de dança, cinema, visuais e outras manifestações artísticas brasileiras. "A intenção é integrar as diversas culturas a partir da literatura."

A Islândia oferece exemplos animadores. "Meu país é habitado em apenas uma área litorânea", conta Gudmundsson. "O restante é inóspito." O aspecto inspirou um trecho do discurso do escritor Arnaldur Indridason na cerimônia de abertura da Feira de Frankfurt, na terça-feira. Considerado um dos principais renovadores da atual literatura policial islandesa (seu livro O Silêncio do Túmulo foi traduzido pela Companhia das Letras), ele encontrou qualidades em meio às limitações geográficas. "A natureza é áspera, o clima é um dos piores da Europa, geologicamente a ilha ainda está em processo de formação, como demonstram os constantes terremotos e as recentes erupções vulcânicas. Em poucas palavras, a Islândia é o local ideal para poetas e ficcionistas viverem", afirmou.

Gudmundsson acrescenta dados estatísticos animadores: cada islandês compra, em média, oito livros por ano - no Brasil, a cifra continua baixa, beirando os 3,7. Tal hábito foi bem exemplificado no pavilhão em Frankfurt: além dos telões exibindo leitores em ação, o ambiente residencial foi reconstituído, com mesas, cadeiras e prateleiras reproduzindo o interior de uma casa na Islândia.

Um dos pontos de maior atração é uma tenda fechada, em cujas quatro paredes são projetadas imagens do país em 360 graus, que provoca sensação de realidade. Assim, o visitante que vislumbra uma corrida de bicicleta consegue acompanhar quando o ciclista se aproxima, passa ao seu lado e, olhando para trás, segue em outra direção. Nem o famoso vulcão cujo nome é tão impronunciável como a extensão de seus estragos (Eyjafjallajokull) foi esquecido.

Atualmente, romances policiais dominam o gosto dos leitores islandeses, o que justifica o sucesso de Indridason, que veio acompanhado de outros 38 autores. "No entanto, nossa literatura começou com a colonização, quando os primeiros habitantes foram obrigados a dar nomes a tudo que os cercava na ilha."

Economicamente, a Islândia também tira proveito da vitrine oferecida em Frankfurt. Segundo Úa Matthíasdóttir, diretora de direitos autorais da editora Forlagio, as consultas vindas de editoras estrangeiras aumentaram 50% em relação ao ano passado.

A divulgação, portanto, é necessária. Mas ainda se parece com um caminho longo e tortuoso para os brasileiros - editores, como Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, reclamam que os agentes literários estrangeiros estão muito mais interessados em vender do que comprar livros. Na verdade, para o presidente da FBN, é uma atitude esperada. "O Brasil se especializou em comprar obras e, agora, precisa se posicionar também como vendedor. E isso leva um certo tempo."

Um dos aspectos do programa será um tour de autores brasileiros por diferentes países, especialmente a Alemanha. O primeiro grupo, que deverá ficar uma semana viajando, será escolhido já em janeiro. "Será aberto um edital em que as editoras com melhores propostas de integração serão escolhidas", conta Galeno.

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