Desafio da renovação

Em novo ciclo pós-Jiri Kylian, a Nederlands Dans Theater firma sua identidade e investe mais na teatralidade

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h13

Assistir a uma companhia como a Nederlands Dans Theater é sempre um acontecimento. Ela pertence ao restrito Olimpo da dança e lá foi instalada pela marca de qualidade que Jiri Kylian imprimiu nas 101 coreografias que criou durante os 36 anos em que a comandou. A tarefa de cuidar desse precioso legado cabe, desde setembro do ano passado, a Paul Lightfoot, seu atual diretor, que acumula 27 anos de bons serviços prestados ao Nederlands como bailarino e coreógrafo.

Depois de 11 anos, a companhia volta a São Paulo para dançar Sehnsucht Schmetterling, de Sol León e Paul Lightfoot, no Teatro Municipal amanhã, às 20 horas, e domingo, às 16 horas e às 20h30. A dupla tem mais de 40 obras no seu acervo de criações e, desde 1989, produz para o Nederlands Dans Theater e lá se tornaram coreógrafos residentes em 2002.

No Teatro Municipal do Rio, na quarta-feira e ontem, o programa foi outro: Memoires d'Oubliettes, a obra de despedida de Kylian, de 2009; Solo Echo, de Crystal Pite, para duas Sonatas para Piano e Violoncelo de Brahms e o poema Lines for Winter, de Mark Strand; e Speak for Yourself, de Paul Lightfoot e Sol León, com a Arte da Fuga, de Bach.

Em entrevista por telefone ao Estado, Paul Lightfoot explicou a razão da escolha de programas tão distintos: "Temos pouco tempo para a montagem, e o teatro de São Paulo aceita melhor, em termos técnicos, as obras de mais fôlego que estamos levando. Vamos encerrar a nossa temporada no Brasil e isso nos anima muito porque guardamos lembranças muito boas de como vocês nos recebem."

Para ele, a marca que Kylian imprimiu à companhia foi a capacidade de ela se renovar constantemente, sempre mantendo a mais alta qualidade. "Veio dele o estímulo para que buscássemos coreógrafos mais jovens, porque embora não o seja, pois tem apenas 65 anos, já se considera velho." Os novos colaboradores têm uma função: fazer com que o desempenho teatral dos 50 bailarinos de 22 nacionalidades que compõem o elenco se equipare à excelência de seu nível técnico. "No norte da Inglaterra, de onde vim, se diz que você é tão forte quanto seu elo mais fraco, e nossa meta, agora, é investir muito na questão da teatralidade da nossa dança. A carreira de bailarino é curta, dura no máximo 20 anos e, nos últimos tempos, os desafios foram se tornando cada vez mais exigentes em termos formais. Estamos agora necessitando cuidar dos aspectos que ainda não mereceram a mesma atenção para que nossos artistas sejam cada vez mais criativos."

Outra de suas grandes preocupações é social: "É muito importante lembrar que devemos levar a nossa arte para todas as pessoas, pois a dança pode fazer sonhar. A boa arte ajuda a cuidar do futuro."

Danças sociais. A próxima criação da dupla já está sendo gestada. "Sol e eu queremos que o público fique muito perto, a não mais do que meio metro dos bailarinos, por isso todos se sentarão no palco conosco. No momento, estamos bem interessados no efeito das danças sociais, na fisicalidade que elas produzem."

Paul Lightfoot anima-se para falar do programa que São Paulo vai conhecer: "São duas obras reunidas. Vale prestar atenção aos contrastes de tensão dramática e psicológica, e nas mudanças de eixo que fazem com que o chão se transforme em parede, e a parede vire teto. São Paulo é muito importante para nós, por isso escolhemos um programa denso, que oferece diferentes níveis de abordagem."

A lamentar somente o preço dos ingressos, de R$ 100 a R$ 320, que impede o alcance dos tipos de público que também interessam ao diretor do Nederlands Dans Theater.

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