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Desabafos

Essa democracia, que sempre e em todo lugar produz tantas crises, deve ser a todo custo defendida

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 03h00

1. Quando o clássico autoritarismo nacional toma fôlego, ataca de cima e revela o desejo de retorno; quando a democracia é ameaçada por manifestações e agressões verbais que transformam adversários em inimigos; quando insultos são vociferados pelo presidente da República e alguns dos seus ministros – como o da Educação, o qual não tem ideia do que é um “povo indígena”; quando se interfere na justiça em favor do familismo – esse vírus central do privilégio e da corrupção; quando vejo a olho nu a mais neurótica irresponsabilidade cívica, nada é mais necessário do que a lucidez das análises compreensivas. É preciso um desabafo sociológico. 

Pois, se a consciência, como mostraram Marx, Weber, Durkheim e, sobretudo, Freud, é o que nos torna entidades morais – com o dever inexorável de pensar duas ou mais vezes contra e a favor de nós mesmos –, nada é mais premente do que tentar conjugar o histórico com o eventual. A conjuntura não abole a estrutura, antes, pelo contrário (veja-se Marshall Sahlins), elas são interdependentes. Sistemas fundados no servilismo, na escravidão e no ressentimento coletivo reprimido suscitam a ilusão das soluções derradeiras, de regimes definitivos. 

Ganha um fim de semana em Manhattan (com direito a pandemia e a tomar parte nos protestos contra a segregação racial) quem me indicar um comentário político que não seja sociológico. 

 

2. Por causa disso, reitero a pergunta que não pode calar: o que trouxe ao centro do cenário político brasileiro o Capitão Bolsonaro e filhos? Eles – toscos e rudes – surgiram do nada ou foram feitos protagonistas porque a peça a que se assistia era desmoralizadora e dava cabo do próprio teatro, hoje – paradoxalmente – não menos ameaçado também por meio de um agente externo sem intenção política: a pandemia.

 

3. Invoco o Rousseau do Contrato Social: “Antes de examinar o ato pelo qual um povo se entrega a um rei, será melhor examinar o ato que o torna povo. Este ato é a verdadeira fundação da sociedade”.

Convenhamos que isso não é impossível, mas é difícil numa sociedade fundada de fora para dentro, debaixo de um autoritário e burocrático colonialismo radicalmente católico e anti-igualitário. Um sistema consolidado pela fuga, em 1808, da Corte portuguesa diante do avassalador surto democrático napoleônico. Um Brasil movido por laços de puxa-saquismo com punhos de renda, irmão de um desumano escravismo negro. 

4. Fomos reino, império, República logo alterada como ditadura civil e militar. Pagamos, penamos e conseguimos a democratização. Hoje, somos um estado nacional que se quer moderno, próspero e democrático. Fizemos a nossa independência de Portugal ou foi o contrário? Mais: quando é que, como diz Octavio Paz focando o México e a América Espanhola, vamos nos tornar independentes e a favor de nós mesmos? Quando vamos enfrentar a nossa ambiguidade institucional e o protagonismo político do nosso familismo?  

 

5. O mandonismo absolutista, irritante e errático de Jair Bolsonaro é revelador. Mostra uma total incompreensão do seu papel de – usemos um epíteto antigo – “supremo mandatário da nação”. O que vi no famoso vídeo foi como um líder influencia seus seguidores. Uns, é claro, mais do que outros. Mas, ali, é óbvia a coerção a arremedar o líder, copiando o seu comportamento mal-educado e o seu vocabulário escabroso. Pois não há quem não deseje um líder capaz de desafiar o bom senso, por mais que isso seja uma infantilização e conduza ao desastre como, vale lembrar, foi o caso de uma Alemanha “altamente civilizada e ariana” na sua paixão por Hitler e pelo seu nacional-socialismo germânico.  

 

6. Quando usamos de modo imperativo categorias constitutivas do regime democrático como liberdade, igualdade e justiça, corremos o risco de praticar terrorismo ideológico porque – dependendo do contexto – surge o silêncio. Quem seria contra a liberdade sem ser suspeito de fascismo? E, no entanto, ser privado de escolha ou do debate é estar na prisão do fascismo que – basta olhar para a história – é de direita e lamentavelmente também de esquerda.

Essa democracia, que sempre e em todo lugar produz tantas crises, deve ser a todo custo defendida. Justamente por isso, não pode deixar de ser pensada. 

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