Depois do holocausto, um olhar sobre a revolução

Em O Palácio de Inverno, que a Companhia das Letras lança no próximo mês, John Boyne usa um expediente ao qual já havia recorrido em O Menino do Pijama Listrado e O Garoto no Convés, os dois romances dele já publicados por aqui - uma história que corre em torno de uma testemunha de grandes fatos históricos que não tem discernimento para avaliar o que vê.

Entrevista com

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Mas, desta vez, Boyne mexeu um pouco na fórmula. Em vez de seguir uma narrativa linear, criou um romance em fragmentos, cuja frase inicial ("Meus pais não foram felizes no casamento") já mostra o distanciamento de alguém com capacidade para julgar o passado. O personagem em torno do qual corre a história é Geórgui Danielovitch Jachmenev, um camponês que, durante a adolescência, na Rússia, tenta impedir o melhor amigo de cometer um crime e se envolver numa enrascada, e, por uma dessas ironias da vida, acaba sendo tomado por herói. O caso é que o homem que seu amigo planejava matar era ninguém menos que o grão-duque Nicolau Nicolaievitch, primo do czar Nicolau Romanov. É o que basta para o adolescente ser cooptado para trabalhar como guarda-costas do filho único do czar - e se apaixonar pela filha dele, Anastasia -, passando a acompanhar de perto os assassinatos e as crises que culminariam na Revolução Russa, em 1917.

Mas é na velhice, enquanto a mulher com quem passou a vida inteira agoniza com um câncer em estágio avançado no hospital, no ano de 1981, que Jachmenev começa a contar essa história. O leitor logo fica sabendo que a maior parte da vida o personagem passou longe de familiares e de sua terra natal. Enquanto a Rússia vivia mudanças turbulentas, mudou-se com a mulher para Paris, e cinco anos depois o casal se instalou na Inglaterra, onde passaria o resto dos dias.

O Palácio de Inverno saiu em língua inglesa no final do ano passado e, na comparação com O Menino do Pijama Listrado, mereceu bem menos atenção da crítica internacional. Neste ano, John Boyne resolveu voltar a escrever para o público infantil - embora ele próprio não avalie Pijama Listrado como infanto-juvenil -, com Noah Barleywater Runs Away, ainda sem previsão de lançamento por aqui.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.