Depois dela, o dilúvio

Não há João Santana que consiga orquestrar propaganda eleitoral mentirosa mais eficaz. Admiradores e detratores da candidata a primeira mulher presidente dos Estados Unidos concordam: uma brancaleônica tropa de republicanos pode ter sido decisiva para os democratas Hillary e Bill Clinton se mudarem de volta para a Casa Branca em papéis trocados.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2015 | 02h00

E não será um feito comum. Só duas vezes, na história do bipartidarismo, que começou em 1828, a Casa Branca foi ocupada durante três mandatos consecutivos por um membro do Partido Democrata. Em 1836, o vice-presidente democrata Martin Van Buren sucedeu o reeleito Andrew Jackson. Em 1940, Franklin Roosevelt se reelegeu para um terceiro mandato. Sete anos depois, uma emenda constitucional acabou com o terceiro mandato presidencial.

As onze horas de sabatina de Hillary Clinton pela comissão que investiga o ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, em 2012, poderiam ter sido transmitidas ao vivo por um canal de esportes. Foram basicamente uma prova de resistência em que Hillary levou ouro, prata e bronze. O espetáculo da sabatina não tinha nada a ver com preocupação com a segurança de americanos em zonas de conflito ou com a memória do embaixador Chris Stevens e dos três outros funcionários mortos no ataque. A comissão existe, como confessou um boquirroto deputado republicano, para deter a candidatura Clinton. A comissão já torrou US$ 4,7 milhões do contribuinte, e, no décimo sétimo mês de atividade, é mais longa do que as comissões que investigaram Watergate, o furacão Katrina e o ataque a Pearl Harbor.

O presidente da comissão, cuja estupidez o transformou em cabo eleitoral da ex-Secretária de Estado, é um republicano do baixo clero da Câmara de Representantes, Trey Gowdy da Carolina do Sul. O suor do Gowdy diante da composta, sombria e calma Hillary fizeram lembrar o primeiro debate presidencial ao vivo da história, em 1960. Foi o debate que selou a derrota do veterano e suado Richard Nixon, pelo cool e calouro John F. Kennedy.

Gowdy teve bons coadjuvantes na tarefa involuntária de fazer de Hillary uma opção legítima e não dinástica na eleição de 2016. Seus irmãos de armas incluíam uma deputada que parecia ter dificuldade de localizar a Líbia no mapa e um sulista conservador que tentou colar em Hillary a imagem de idosa, ao dizer que falava devagar para ela poder consultar suas anotações. Hillary Clinton é o Neymar do ataque com informações de memória.

Noto que Hillary é representada no Brasil e em outros países com pinceladas de heroísmo. Mas, nos Estados Unidos, ela é atacada pelos dois flancos ideológicos. O centrismo fundado pelo casal Clinton nos anos 1990 inclui uma dose indigesta de conchavos com interesses escusos em nome da viabilidade eleitoral. Mas o subitamente viável Barack Obama mostrou, em 2008, que não era preciso chafurdar tanto. A comissão sobre Benghazi articulou, melhor do que qualquer marqueteiro ou a própria Hillary, como ela é a única alternativa neste deserto de ideias.

A certa altura, Trey Gowdy pressionou Hillary por ter respondido, em apenas quatro minutos, a um e-mail de uma assessora, dizendo, os líbios precisam de diesel, gasolina, leite e remédios. A ideia era fazê-la confessar que não havia considerado por mais tempo e em detalhe as necessidades dos líbios. Não dava para conter o riso. Quem se lembra da cena de Legalmente Loira, em que a estudante de Direito e perua vivida por Reese Witherspoon leva a juíza à loucura repetindo a mesma pergunta a uma testemunha, para ganhar tempo? No filme, a personagem vence suas limitações com inteligência e inocenta uma ré.

Em Washington, os calouros da nova safra republicana só fizeram Hillary brilhar. E a cereja no bolo eleitoral dos democratas arrisca ser uma cenoura, da cor da cabeleira do pré-candidato Donald Trump, o adversário que Hillary há de pedir aos céus.

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Crônica Lucia Guimaraes

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