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Depois de Michelle

Desde que chegou à Casa Branca, Michelle se encontra com adolescentes do 2º grau, mas são poucas as chances de uma carreira política

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 04h00

“Você não é material para cursar Princeton,” disse o orientador da escola à jovem criada numa família de trabalhadores no predominantemente negro South Side de Chicago. A jovem não só passou para a Universidade de Princeton, como seguiu para a cobiçada Escola de Direito de Harvard. 

Michelle Obama, a segunda mulher mais admirada dos EUA (a primeira é Hillary Clinton) passou os últimos nove anos sob o escrutínio público intenso que ela tentou evitar. Se, em 2007, o desconhecido senador Barack Obama do Estado de Illinois, não foi levado a sério como candidato a presidente, sua mulher foi objeto de mais do que dúvida, escárnio.

A qualidade que tornou Michelle o passaporte de Barack entre a população afro-americana, fez dela também um Judas para insultos da direita e alvo de mal disfarçadas farpas da suposta intelligentsia progressista. O bi-racial Barack não era considerado um brother. Filho de mãe branca, criado no Havaí sob relativa proteção do racismo escancarado, o então senador apresentou Michelle como âncora de sua identidade. Ela, sim, era fruto da experiência negra urbana.

De alguma forma, a trajetória de Michelle Obama ilustra a desconexão da elite do país com os eleitores que permitiu a emergência de Donald Trump. Se taparmos o nariz para a extraordinária agressividade racial da direita, agora ainda mais ousada após a escatológica campanha presidencial, há que lembrar o papel inicial da mídia em tratar Michelle como “material” inapropriado. Sua tese de mestrado em Princeton sobre o isolamento dos estudantes negros foi rechaçada como exemplo de ressentimento. Ao citar trechos da tese em tom crítico, a revista Newsweek, no começo de 2008, concluiu, num insulto espantoso, que um sinal da nova “assimilação” de Michelle, era o fato de ela conseguir usar um vestido e pérolas iguais às de Jackie Kennedy de maneira graciosa.

No apagar das luzes de 2016, Carl Paladino, codiretor da campanha de Donald Trump em Nova York e membro do Conselho de Estadual Educação, entrevistado por um jornal sobre sua esperança para 2017, respondeu: “Michelle Obama. Gostaria que ela voltasse a ser um macho e fosse solta nos fundões do Zimbábue para viver numa caverna com Maxie, a gorila.” Quem não é material para a vida pública?

Desde que chegou à Casa Branca, em 2009 , Michelle se encontra quase todo mês com adolescentes do segundo grau, como parte de um programa que lançou para meninas em desvantagem social. Além da assistência a veteranos e de sua iniciativa de alimentação saudável e atividade física, dois temas foram constantes na sua definição como Primeira Dama, um cargo não eletivo que sempre pode ser reinventado: superar baixas expectativas e sair da bolha para ouvir o público, especialmente jovens.

Duas declarações recebidas com pesada artilharia crítica marcam a entrada e a saída de Michelle Obama da vida política:

“Pela primeira vez, na minha vida adulta, sinto orgulho do meu país porque parece que a esperança está voltando.” Fevereiro de 2008.

“Agora vemos como é não ter esperança.” Dezembro de 2016.

A segunda declaração foi em resposta à pergunta de Oprah WInfrey sobre o significado da esperança, o slogan que ajudou a eleger seu marido, no ano em que a desesperança e o rancor ajudaram a eleger seu sucessor.

Depois de discursos eloquentes na campanha por Hillary, choveram apelos para Michelle Obama se candidatar. As chances são perto de zero, dizem os próximos a ela. Mas desaparecer também não parece ser a opção.

Numa entrevista recente à revista Vogue, Michelle disse que, depois de abandonar seu alto salário num escritório de advocacia para trabalhar no serviço público em Chicago, nunca olhou para trás. “Passei a dormir melhor à noite,” recordou. O país nunca precisou de tantas mulheres de valor acordadas durante o dia. 

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