REUTERS/Annegret Hilse
REUTERS/Annegret Hilse

Depois de meses em lockdown, precisamos de novas memórias. Mas será que você pode 'criá-las'?

A lista de coisas que nos propusemos a fazer só ficou mais comprida e as companhias estão ansiosas por alimentar esse desejo prometendo 'criar' momentos mágicos e experiências que mudarão nossas vidas

Roxanne Roberts, The Washington Post

26 de julho de 2021 | 20h00

Se 2020 foi um ano inesquecível por todas as razões erradas, a pressão agora é tornar 2021 inesquecível pelas razões certas. Queremos sair, nos divertir, e, é claro, “criar novas memórias”, segundo as palavras em propagandas e tábuas de madeira com frases inspiracionais expostas em lojas de presentes em todo lugar: a festa de aniversário que é um marco, o casamento adiado, aquelas férias especiais da família.



Estas memórias se tornarão, esperamos, histórias que contaremos e repetiremos, os preciosos flashbacks que passarão a fazer parte da nossa história pessoal. Talvez a gente esbanje um pouco (afinal a vida é muito curta para tomarmos vinho barato, não é?) ou finalmente reservemos aquela viagem de navio de cruzeiro ao redor do mundo. Depois do ano que tivemos, a lista de coisas que nos propusemos a fazer antes de bater as botas só ficou mais comprida, e as companhias estão ansiosas por alimentar esse desejo prometendo “criar” momentos mágicos e experiências que mudarão nossas vidas.

Mas a memória é uma coisa complicada. O que esperamos lembrar e o que na realidade lembramos nem sempre coincidem. Duas pessoas no mesmo lugar, ao mesmo tempo, podem ter sentimentos muito diferentes e recordações muito diferentes. Você planeja, digamos, o casamento perfeito e o que cada um lembrará é que o padrinho quebrou a perna na pista de dança. Os planos muitas vezes dão errado.

Mas você pode criar memórias? A resposta é... talvez.

Tudo começa no cérebro, que decide o que guardar e o que desprezar usando um processo chamado “codificação”, em que reações químicas ligam redes diferentes. Fatos importantes são referidos como memória “semântica”; as histórias vívidas - quem, o que e quando - são chamados “memória episódica”.

“Se você está se divertindo, certas regiões do cérebro estarão mais ativas, como o córtex pré-frontal, durante o processo de codificação daquela memória e também tentando recuperar posteriormente toda aquela memória”, afirma Scott Slotnick, professor do Boston College e autor do livro Cognitive Neuroscience of Memory.

Há um tipo específico de memória episódica chamado uma memória autobiográfica - um momento formativo que se torna central para o nosso sentido de individualidade. O cérebro dá prioridade às emoções, boas e ruins. Os gatilhos sensoriais (imagens, odores, sons) podem provocar as conhecidas “memórias involuntárias” - por exemplo, as madeleines no livro Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust.

Mas há outras maneiras de aumentar as chances de que o evento cuidadosamente planejado possa criar o livro de memórias: foco e repetição.

“Se você está prestando atenção a um pôr de sol ou a uma grande experiência na Disney, o cérebro estará mais ativo”, afirma Slotnick. “Então mais provavelmente você as codificará como uma boa lembrança. Se alguém não está prestando atenção à experiência - se está concentrado no seu smartphone ou distraído - não formará tais memórias”.

E há ainda outra peculiaridade: uma boa noite de sono.

“O sono é também muito importante para formar uma lembrança sólida dos eventos que ocorreram no dia anterior”, afirma Sotnick. Não o estado mais leve quando sonhamos, mas o sono mais profundo, em que as memórias de longo prazo são eliminadas ou reforçadas.

Há um crescente consenso nos meios científicos segundo o qual nós alteramos uma lembrança toda vez que a rememoramos, omitindo ou acrescentando detalhes, até que a experiência original se transforma de maneira significativa. Isto não faz com que as pessoas deixem de contá-las novamente, e as memórias se tornam a história familiar.

“Uma das coisas importantes é que a memória é uma espécie de intercâmbio social”, afirma Nora Newcombe, psicóloga da Temple University. Tradicionalmente, “parte do papel feminino consiste em criar coesão social, coesão familiar - é sabido que as famílias em que há irmãs, quando os pais morrem, acabam mais coesas do que as famílias em que há apenas irmãos. A tarefa emocional das mulheres consiste frequentemente em criar e compartilhar deste tipo de memórias”. Mas todos os pais estão convencidos de que seus filhos terão memórias duradouras daquela viagem ou da festa de aniversário muito especial? Nem tão depressa assim.

Bebês e criancinhas que mal aprenderam a andar não terão memórias individuais distintas, ela afirma. As crianças têm maior dificuldade para lembrar coisas que não entendem e só começam de fato a criar lembranças episódicas por volta dos oito anos. O que as crianças lembram é algo inesperado - por exemplo, festa de aniversário sem bolo ou esbarrar em uma professora fora da sala de aula.

O que significa, afirma, que os pais não deveriam se cobrar tanto. “As crianças provavelmente lembrarão de um bolo de aniversário comprado na loja tanto quanto de um feito carinhosamente em casa”, ela diz, e acrescentou: “Como acontece com a maioria das coisas, acho que ‘relaxar’ é a mensagem.”

À pergunta sobre o que eles deveriam pegar se a sua casa pegasse fogo, as pessoas falam em pessoas, animais de estimação, telefones celulares e depois velhas fotos de família. As fotografias ativam o nosso cérebro a lembrar, não apenas o momento captado pelo filme, mas as histórias por trás da imagem. Como as fotos pessoais são quase sempre tiradas em reuniões sociais, as memórias costumam ser positivas.

Fazer um álbum de lembranças - que é como dar uma turbinada nas lembranças - teve uma década de glória antes que todo mundo tivesse um celular e, portanto, uma coleção pessoal, portátil de fotos. E agora a ironia: ter tantas fotos nos nossos celulares torna mais difícil distinguir as memoráveis das menos interessantes.

Mas a promessa de criar momentos especiais é constante na publicidade. Por 32 dólares, você pode pôr um aviso explicando a bagunça da sua casa: “Por favor, desculpe a confusão. As nossas crianças estão criando as suas memórias.”

Complicado é convencer os consumidores de que um carro, comida ou férias passarão a fazer parte de sua narrativa pessoal. A Subaru acertou em cheio com o seu comercial de 2015: “Making Memories (Criando memórias)”: Um pai limpa o seu carro antigo enquanto ouve os melhores momentos da infância da filha, e então joga as chaves para ela. O slogan? “Você pode se desfazer de uma Subaru Forrester, mas ficará com as lembranças”. O Lexus quer que você acredite em um “dezembro para lembrar,” com o carro presente nos momentos especiais da família. E McCormick criou um anúncio em sua série de “Making Memories” usando a ideia de que uma lasanha devidamente condimentada se tornará uma preciosa tradição familiar.

Mas em parte alguma o atrativo da criação de memórias é tão profundo quanto no setor de viagens. A Carnival Cruise Lines usou fotos de família para a sua campanha “Momentos que importam”; a Belle of Louisville, a mais antiga companhia de navegação fluvial, lançou sua campanha “Making Memories Since 1914” (Criando memórias desde 1914) neste ano.

E, evidentemente, o camundongo que rugia: Haverá uma companhia melhor do que a Disney que toca as cordas do nosso coração enquanto rouba a nossa carteira? Em 2011, ela lançou Let the Memories Begin (Que comecem as memórias), uma promoção de três anos em que usava fotos e vídeos de clientes na televisão e anúncios impressos. As lembranças começam quando as crianças descobrem que irão para o Disney World e, segundo a publicidade, durarão “toda uma vida”. Talvez seja assim para os pais, que pagam milhares de dólares pela viagem; o que os filhos lembrarão melhor será talvez das orelhas do ratinho por 17,99 dólares.

A esperança é que estes momentos possam tornar-se marcos nostálgicos, o que Don Draper em Mad Men” chamou de “uma dor pungente no coração, muito mais poderosa do que a memória sozinha”. Em uma cena icônica no final da Temporada 1, o executivo da empresa de publicidade lança a sua campanha para um uma máquina de projeção da Kodak. “Este aparelho não é uma nave espacial, é uma máquina do tempo”, explica. “Ele nos leva a um lugar ao qual ansiamos por voltar. A um lugar em que sabemos que somos amados”.

E assim fechamos o círculo. O anúncio do Google para o Super Bowl 2020 foi uma choradeira sobre a saudade dos velhos tempos. No comercial, ouvimos a fala em off de um homem idoso usando o seu Assistente do Google para armazenar memórias específicas de sua amada esposa falecida. O Assistente responde: “OK, Lembrarei disto”.

Em Busca do Tempo Perdido, 2.0

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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