Depois da vacina

Que saudades dos meus filhos... Será que fizeram o dever de casa? Eu poderia fazer aquele macarrão pra eles

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2020 | 03h00

Na semana, anunciou-se que dez vacinas já estão sendo testadas em seres humanos. Pulam etapas. Bilhões jorram. Depois de isolamentos rigorosos, países europeus e asiáticos voltam à normalidade. Em termos: a uma nova normalidade. 

Nos EUA, ainda impera o “descomando” do paranoico mitomaníaco egocêntrico que não acredita na ciência, governa focado numa campanha eleitoral para seus eleitores fiéis, não tem empatia, não respeita o oposto e não estaria onde está se não fossem as fraudes da verdade de robôs e algoritmos das redes sociais. Como aqui.

Lá, a curva de contaminados não caiu, mas as praias e parques abriram, depois do tenebroso inverno (e nunca o clichê literário “tenebroso” caiu tão bem para descrever o inverno pelo que passaram). Poucos usam máscara em público, seguindo o exemplo do mister president. 

Jogos olímpicos, eventos esportivos em estádios, shows, manifestações de massa, teatro e tudo aquilo que envolve contato físico entre pessoas, como concertos, baladas, festas, aguardam a vacinação em massa prometida para o fim do ano, ou começo de 2021.

E se rolar?

Será o Carnaval dos carnavais, a Olimpíada de todas as olimpíadas, o concerto inesquecível, o megashow em que sobreviventes dos Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd e Rolling Stones, com abertura do Metallica, tocarão juntos e de graça, ao vivo, num réveillon de Copacabana?

As bolsas baterão recorde. O risco-país despencará. Até navios de passageiros sairão em comboio parando de praia em praia, passageiros dançando, com rolhas de champanhe voando, apitando.

Eu?

Irei a um cinema. Depois, ao bar do bairro. Abraçarei amigos e garçons. Ficarei com os cotovelos no balcão comendo tudo que vier da chapa e dividindo cerveja.

E depois?

Em minutos, me lembro das cinco séries a que assisto que liberaram novos episódios. Daquele meu pinot noir, em casa é tão mais encorpado do que esta bebida quente. Por que a batata frita vem tão oleosa? Balcão está sujíssimo. Não tem álcool gel? Meu deus, e este banheiro, não consigo me sentar ali! Este cara aí está próximo demais, expele perdigotos, que risada exagerada. Por que gritam tanto? Naquela mesa, falam alto demais. Só tem vinho fora da geladeira? A taça está imunda. O sujeito pegou amendoins do meu prato! Desculpe, não vou dar a mão pra você, depois terei que lavá-la, e não entro naquele banheiro. De onde vem o fedor de cigarro? Estou ficando sem ar. Da calçada? Não é proibido fumar na calçada? Não? Estou gordo, não tem salada aqui? Preciso cortar o cabelo, cai no olho. Será que podem apagar esses cigarros? Saudades dos meus filhos. Não tinha uma live hoje com escritores paulistas? Que horas é mesmo o call das irmãs que moram na Europa? Que saudades dos meus filhos... Será que fizeram o dever de casa? Eu poderia fazer aquele macarrão pra eles, ou um hot-dog. Veríamos um desenho japonês do Studio Ghibli, ou Rango, Zootopia, um clássico da Disney e Pixar. Mais Angry Bird (muito engraçada aquela cena da terapia em grupo), Os Irmãos Willoughby, Meu Malvado Favorito, Hotel Transilvânia, Madagáscar, com aqueles pinguins sensacionais, Booba. Adoro as trapalhadas do Booba, a risadinha dele, o “oh-oh?”. Depois, teria aquele banho de uma hora. A casa fica com um cheiro tão bom... Conto uma história da Ruth Rocha e vamos dormir. 

Enquanto em outra mesa...

“Ele não mandou o nude, hoje. Deve estar num bar lá com seus amigos, com bebida quente, batatas fritas oleosas, balcão sujo sem álcool gel, que tem um banheiro imundo e caras expelindo perdigotos de risada exagerada, cercado por gente que grita, em que o vinho fica fora da geladeira, e o servem numa taça imunda, atordoada pelo barulho, fumaça de cigarro. Será que repararam que estou descabelada? Antes, tinha a desculpa... Salão, unhas, sobrancelhas, depilação, ai que preguiça. Que preguiça desta gente, deste bar, deste cheiro, não quero abraçar ninguém, sai fora, preciso do meu espaço, está olhando o quê? Saudades do meu curso de poesia, harpa, aula online de tango, história brasileira, comida creole, rever jogos da Seleção de antigamente, do futebol arte. Falta ainda um livro daquela trilogia. Estou tão fora de forma. É, quem não nesta quarentena? O que estou fazendo aqui? Ele não vai me mandar nude? Ele não pensa mais em mim? Não quero trabalhar no escritório amanhã. Duas horas na Marginal! Minha chefe, aquela tirana, no Zoom eu desligava o vídeo e áudio, e fazia outra coisa, mas no escritório?! Em que bar ele foi? Como pago a conta?”

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