Depois da tempestade

Decidido a voltar ao silêncio e aos violões, Caetano estreia temporada de Abraçaço

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2013 | 02h19

Violão, só violão. Violão e voz, no máximo. Mais silêncio, menos som. Calmaria no lugar de tormenta. João Gilberto vencendo Jimi Hendrix. Caetano Veloso - não este da foto, um polvo de oito braços ainda querendo agarrar o mundo com os ruídos de seu recente álbum Abraçaço - deve mudar de novo. Está tentado a pisar nos freios, desconectar guitarras e cuidar melhor dos ouvidos. É um homem de 70 anos que reflete com uma serenidade cada vez mais próxima da tristeza, um tropicalista que já colocou para fora todos os demônios que uma guitarra pode absorver e todos os anjos que um violão evoca. Seu mundo termina agora de fazer mais um giro com o fim da trilogia de discos ruidosos iniciada com Cê, seguida com Zii e Zie e concluída com Abraçaço. A temporada de palcos pelo Brasil para lançar este último começou há duas semanas no Rio de Janeiro e, hoje, chega a São Paulo, no HSBC Brasil, para ficar até domingo. Uma chance de ver Caetano em seus últimos dias de roqueiro indie antes que ele retome a própria história do mesmo ponto de onde tudo começou.

A pergunta protocolar sobre Abraçaço era a última das cinco que o Estado enviou ao cantor para que ele a respondesse por e-mail. "Caetano, o que mais você tem feito? Apesar de lançar seu novo trabalho agora, já tem um próximo em mente?"

A primeira parte da resposta não revela muito: "Escrevo uma coluna semanal para o (jornal) O Globo - coisa que pensei que nunca faria. Não tenho nenhum plano definido do que fazer depois de Abraçaço." Mas, na sequência, melhora: "Acho que preciso fazer música mais silenciosa. Pouco volume. Descansar o velho ouvido de sons de guitarra e baterias fortes. Gosto muito (e não sei o que vou fazer do meu hábito de brincar Carnaval na Bahia, com guitarras e tambores realmente ensurdecedores). Eu adoraria tocar violão menos mal para fazer um duo com Jaques Morelenbaum, muito radicalmente quieto, em sons joãogilbertinamente baixos, totalmente acústico mas com gosto de Recanto (o recente disco de Gal, que ele produziu) e de James Blake. Mas como já disse um cara genial: quem aguenta me ouvir tocando violão?"

O fato de se distanciar do instrumento que aprendeu a tocar com João Gilberto não é uma postura política como a de Jorge Benjor, que trocou as cordas de náilon pela guitarra Fender Telecaster nos anos 80 para os 90. Benjor enterrava uma fase, a do sambalanço, para fazer o funk pop de W/Brasil. Caetano, apesar de estar há quase 10 anos no balão de ensaio experimental de Kassim, Moreno e Domenico, sempre esteve próximo ao violão. Quando compõe, sua cabeça funciona sempre como se estivesse com o instrumento no colo.

O violão aparece no colo de Caetano em vários momentos do show Abraçaço, mas nunca para fazer canção convencional. Ele diz: "O show não vai ter voz-e-violão. É bandaCê radical. Há muita variedade de climas, mas tocamos tudo juntos." É interessante vê-lo sem as bases confortáveis dos instrumentos harmônicos, sustentado às vezes por ruídos, algo identificado também em Recanto, o show e o disco de Gal Costa que saíram de sua cabeça. Se o repertório de Abraçaço é por isso mais difícil de ser cantado? "Pode ser. Eu o considero mais desafiador. Mas tenho em mente o fato de esse disco ter agradado mais do que os outros dois. Meu favorito é o Cê. Mas Abraçaço teve receptividade surpreendente para mim. Mesmo meus amigos estrangeiros, que foram sóbrios em relação a Cê e Zii e Zie, reagiram com entusiasmo a esse novo disco. Talvez isso se deva à despretensão, à quase ausência de intenções deliberadas em sua concepção. Mas certamente ao fato de a bandaCê estar tocando com relaxamento e naturalidade impressionantes."

Ao contrário da de Gil, a voz de Caetano segue firme. Antes do show, procura não falar por alguns instantes, e é só. "Nunca cuidei de minha voz. No ano passado precisei falar com otorrinos e fonoaudiólogas porque senti falhas vocais. Fui até procurar Felipe Abreu para aprender uns exercícios. Agora, perto de estrear, fiquei apreensivo, mas fiz os ensaios e aguentei bem." Aos 70 anos, Caetano Veloso diz que não abaixa tonalidades de suas músicas para atingir as notas mais agudas, como fazem os cantores veteranos. Há apenas uma exceção que ele revela: "A única canção que precisei descer um tom para cantar foi uma que já era alta demais quando gravei faz muitos anos: Eclipse Oculto."

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