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Depois

O encontro com a turma no bar depois do expediente era sagrado para o Tadeu; podia-se até dizer que Tadeu vivia para aqueles encontros de todos os dias

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2015 | 09h36

O encontro com a turma no bar depois do expediente era sagrado para o Tadeu. Podia-se até dizer que Tadeu vivia para aqueles encontros de todos os dias. Nada lhe dava mais prazer do que estar com os amigos, tomando chope atrás de chope, falando de futebol e de mulheres, e compartilhando experiências. Tudo que acontecia com o Tadeu, no emprego ou na sua vida pessoal, ele compartilhava com o grupo. Não era de surpreender, portanto, que um dia ele chegasse no bar e anunciasse:

– Gente, vocês não sabem o que me aconteceu.

– O quê?

– Morri.

Os outros riram. Tadeu obviamente queria dizer que morrera em sentido figurado. Mas não, ele morrera mesmo.

– Eu vinha caminhando pela rua, vindo pra cá, e, de repente, pum. Caí morto.

Todos na mesa se entreolharam. Não sabiam o que dizer. Então um arriscou:

– E... Sua família já sabe?

– Ainda não. Achei que antes de qualquer outra coisa deveria vir aqui, contar pra vocês. Pra não ficarem sabendo pelos jornais.

– E foi o quê? – perguntou outro. – Coração?

– Sabe que eu não sei? Eu mesmo vou ter que esperar a notícia no jornal para saber. Só sei que foi fulminante. Eu vinha caminhando pra cá, já pensando naquele primeiro gole de chope gelado do dia, que é a melhor sensação da vida, e de repente...

– Pum.

– Pum. Sem mais nem menos.

– Você não quer um chope?

– Acho melhor não. Pode não me fazer bem, neste estado.

– Mas você, agora, aqui, é o quê? Um fantasma?

– Não, sou eu mesmo, o Tadeu. Só póstumo.

Estavam todos consternados. Por mais que apreciassem o gesto de Tadeu, vindo compartilhar sua morte com o grupo, a situação era embaraçosa. Tadeu continuava no grupo, mas não era mais do grupo. Tadeu estava, literalmente, em outra. O próprio Tadeu sentiu o constrangimento dos demais e anunciou:

– Bem, vou voltar pro lugar onde morri. Vão ter que providenciar o translado do corpo, o anúncio fúnebre, o enterro, a missa e todas as formalidades para se morrer oficialmente. Olha, gente, foi um privilégio fazer parte deste grupo. E quero ver todo mundo no velório!

Quando o Tadeu saiu, o grupo começou a discutir o que acontecera. O pior da morte, decretou alguém, era não poder contá-la depois. É o acontecimento mais importante e decisivo de nossas vidas – e não podemos comentá-lo com os amigos! Uma injustiça. O Tadeu, concordaram todos, dera um bom exemplo. E combinaram que todos voltariam depois da morte para comparar suas experiências na mesa do bar.

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