Depoimento de Thomas Hoepker

"A imagem surgiu quando me encaminhava para o Sul de Manhattan na manhã de 11 de setembro de 2001...

O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2012 | 02h10

...Moro no Upper Eastside e, sendo um fotojornalista experimentado, segui meu instinto profissional, tentando com dificuldade chegar mais perto daquele horror. Quando ouvi que o metrô fora paralisado, peguei o carro, mas fiquei ilhado na Segunda Avenida. Então, tentei cruzar a ponte de Queensborough. Dirigindo em direção a Queens e ao Brooklin, parei aqui e ali para fotografar a catástrofe. A segunda torre do World Trade Center acabara de cair.

Em algum lugar de Williamsburg vi de esguelha uma cena quase idílica perto de um restaurante - flores, ciprestes, um grupo de jovens sentados ao sol brilhante desse esplêndido dia de verão, tendo como cenário de fundo a fumaça negra e espessa das torres. Saí do carro, fiz três fotos da cena e voltei ao volante para tentar chegar mais perto de Manhattan.

No dia seguinte, fui ao escritório da Magnum. Lá, meus colegas examinavam centenas de imagens do Marco Zero. Decidimos publicar um livro com as fotos. Selecionei três que fiz da ponte de Manhattan, mas deixei de lado a de Williamsburg, por considerar que não refletia o que se passou naquele dia. A foto, senti, era ambígua e confusa. Publicá-la poderia distorcer a realidade que testemunhamos naquele histórico dia. Em 2006, David Friend publicou o livro Watching the World Change, dizendo que eu me autocensurei.

Quatro anos e meio mais tarde, quando consultava meu arquivo para fazer uma retrospectiva, o slide da cena de Williamsburg pulou diante de meus olhos e, distanciado da tragédia, aquela imagem me pareceu estranha, surreal. Por que aquele grupo de jovens parecia alheio à catástrofe que se passava atrás deles? Seria por pertencer a uma geração que viu muito a CNN e se acostumou com filmes de terror?

A imagem acabou na parede da retrospectiva em minha cidade natal, Munique, estampada na capa do catálogo da exposição. Todos faziam perguntas sobre ela - e havia 200 outras fotos na mostra. Veio a imprensa e mais perguntas foram feitas sem que eu tivesse respostas. A foto foi publicada em 15 jornais alemães - e apenas uma vez nos EUA, no referido livro de David Friend sobre o 11 de Setembro. Fiquei feliz de saber exatamente o que estava acontecendo quando dois dos fotografados, Walter Sipser e Chris Schiavo, se identificaram e justificaram estar em profundo estado de choque, recriminando-me por ter tirado a foto sem permissão. Ouso discordar. Não sou um artista, não interfiro nos eventos que registro. Se iniciasse uma conversa ou solicitasse permissão para fotografar, a cena seria alterada. O resultado, então, teria sido uma mentira. Não se envolver é um dos credos da fotografia documental."

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