Sasin Tipchai/Pixabay
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Roberto DaMatta
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Dentro do meu coração...

'Desentupiram uma coronária e de quebra mapearam ventrículos e válvulas. Tudo vasculharam, mas nada souberam do lado negro de inveja ou dos rios entupidos pelo ressentimento e pela angústia'

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 03h00

“Somos sensíveis, amorosos, desagradáveis e instáveis porque (querendo ou não) temos um coração. Grande ou pequeno, generoso ou sovina, vaidoso ou humilde, duro ou mole. Quando ele para de bater é sinal de que o nosso corpo anoiteceu na profunda indiferença da morte.”

Ademais – continuou Demostenes, um amigo de infância que se recupera de um ataque cardíaco hospedado aqui em casa –, o coração é uma gaveta ou uma imensa caixa-forte guardadora de sentimentos, acontecimentos e pessoas. Sendo músculo e bomba, ele tem afinidade com os atletas e com os que jamais deixam de trabalhar. Mas, como os velhos automóveis, pode parar de funcionar.

– Olha, Roberto – continuou Demostenes com a serenidade de velho amigo –, enquanto a anestesia dopava a minha consciência, eu ouvia a minha alma e a equipe de médicos que futucava meu coração. Pensei no dentista e, surpreso, descobri que tratar de uma cárie era pior do que a viagem que os cirurgiões faziam no meu coração.

– Verdade? Ainda bem que não doeu nada – falei entre o descrente e o aliviado.

– De fato, Roberto, eles desvendaram o meu coração, desentupiram uma coronária e de quebra mapearam ventrículos e válvulas. Tudo vasculharam, mas nada souberam do lado negro de inveja ou dos rios entupidos pelo ressentimento e pela angústia. Uma verdadeira Amazônia que eu, em plena cirurgia, percorria invocando meus avós, pais, tios, amigos e irmãos; meus filhos e netos, meus trabalhos, amores e perdas. Os caras nem sequer tocaram no álbum de retrato dos mortos enterrados no meu peito. O ventrículo do erotismo, por exemplo, permaneceu virgem e a memória daquele beijo primeiro que o invadiu escapou ilesa da angioplastia. O mesmo ocorreu com o último ósculo dado no idoso um tanto atordoado pelas lúcidas recordações do coração, enquanto buliam no seu coração...

Curavam a veia, mas nada fizeram para sanar o coração como um bombeador de fantasias.

– Num dado momento, Roberto, tentei falar, mas a tristeza não deixou. Como era possível que o meu coração tivesse abandonado o coração que entesourava dores, perdas e gozos entre tantas preciosidades descarnadas que fazem a minha vida? 

Ah! Amigo, o meu coração foi dividido com muita gente. Eu planejei meticulosamente, como faz um gângster de filme americano, entregá-lo para todo mundo. Meu coração jamais foi meu, sendo como é uma verdadeira casa da sogra. Um albergue aberto aos meus filhos, netos, amigos, alunos e viajantes.

Jamais cogitei de deixá-lo nas mãos firmes de cirurgiões e, sobretudo, de políticos – esses doutores em assassinar moralidades. Envolto, então, pelo torpor que me deixava pensar os extremos, eu juntava conscientemente o coração físico que vai morrer com o outro: o coração que guarda a minha vida e que – queira Deus – vai bater de quando em vez em outros corações até ser definitivamente esquecido.

– Quando num ecocardiograma – continuou Demostenes – o meu coração foi examinado, maravilhou-me descobrir que, na sua banal feição fisiológica, havia uma banda. O examinador buscava padrões, mas meus ouvidos musicais distinguiam um piano, um violino, um saxofone e pelo menos dois pandeiros. 

– Roberto, o coração falava sua língua lida como patologia, mas para meus ouvidos era a prova daquilo que chamamos de “ritmo” e de harmonia. Uma música que vem do fundo de cada ser vivo e que, fora de seus algozes peitorais, inspira musicalidade.

– Mas, Demostenes, vem cá. Em nenhum momento você teve medo ou ficou angustiado? 

– Não! Tivesse eu meus planos juvenis, com certeza. Mas em nenhum momento rezei para os deuses que eu tanto amo e respeito. Mas tive uma imensa saudade do meu velho coração, que vovó Emerentina dizia que podia cair porque estava pendurado por um fio... 

– Hoje eu sei, meu querido amigo, que corações não caem. Eles sobem ou se enterram na lama insípida que produzem ao longo de vidas sem sentido. De existências ranzinzas sem beleza e sentimento. Idoso, é claro que penso na morte, mas, eu velho, a velha senhora como um grato epílogo de um livro ou de uma melodia de Jerome Kern. Estou seguro, porém, que vou sentir muita saudade...

PS: Demostenes e eu falamos muito. Conversamos toda a semana até que ele e sua esposa, a santa Glorinha, voltaram para o sítio onde moram. Tentei traduzir aqui sutilezas emocionais que um coração amigo exprimia. Imagine agora juntar as vozes de todos os corações. Que sinfonia de inexprimível beleza, amor e saudade elas iriam orquestrar. Não haveria nada mais sublime. Porque um coração cabe dentro do outro e do outro e do outro e do outro...

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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