Dentro da perda da memória

A romancista Nathalie Sarraute chamou a atenção para uma figura de retórica que era usada de maneira anônima na prosa de ficção moderna. Alertou-nos para certo tipo de diálogo sem palavras que em conto ou romance se passa entre personagens e objetos e entre personagens. À noite, um casal passeia em silêncio pela calçada e interrompe a caminhada. Viram-se os dois para a luz intensa da vitrina. Com o desejo e os olhos, um e o outro conversa com os objetos expostos. Durante o ensaio, o músico se inclina para o maestro. Em sala de aula, o estudante, para o professor. A presença do outro provoca no músico e no aluno um enxame de complexos movimentos subjetivos que, se bem descritos, desenham o perfil psicológico de cada um. O romancista moderno reproduz esse diálogo afetivo, que nada tem a ver com o monólogo interior. Nathalie Sarraute deu-lhe o nome de subconversa (sous-conversation).

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h08

Para explicitar o funcionamento da subconversa na psique humana, ela recorreu a um termo da linguagem científica - tropismo. O ser humano age como a planta frente à presença imperiosa do sol. A mudança de orientação no comportamento é determinada por estímulo inesperado e externo.

Lembrei-me de Nathalie e dos contos de Tropismos (Komedi, 2009) ao ler os doloridos relatos curtos reunidos pela argentina Sylvia Molloy em Desarticulaciones (Eterna Cadencia, 2010), alguns já traduzidos ao português e publicados na revista Serrote (n.º 9). Tomada pela doença de Alzheimer, a antiga parceira de Sylvia, M. L., perde a memória. Os relatos curtos dão conta das sucessivas visitas de Sylvia ao apartamento da ex-companheira. A pouca conversa entre as duas e a excessiva subconversa se desenrola de maneira desarticulada, vale dizer, desprovida de significado factual. No entanto, a desarticulação se arma por um ímã solar, a atração amorosa, que a acondiciona. A atração aproximou as duas e, pelo acaso da doença, as reaproxima para distanciá-las definitivamente. "Sinto que a estou abandonando", diz a narradora na página final, e acrescenta: "De algum modo, é ela que se está abandonando".

A atração amorosa motiva a inclinação da visita, não correspondida pela enferma - um objeto cintilante na vitrina do apartamento. E persiste como pano de fundo, de onde os relatos sucessivos retiram sentido. O desencontro não é a tônica dramática do livro; propõe a "subconversa" que empurra penosamente a escrita de Sylvia para o conhecimento da doença. Sem fuga sentimental para o passado e sem esperança de futuro a dois, a comunicação entre a pessoa que recorda e a pessoa desprovida de memória se dá "no puro presente da linguagem". Já a narradora goza de grande liberdade narrativa. Não existe mais testemunho confiável da antiga vida em comum. À semelhança do personagem Mr. Arkadin no filme homônimo de Orson Welles, só ela controla os fatos do passado. No discurso amoroso, a doença de Alzheimer padecida por uma é a vitória ditatorial da outra sobre a intimidade das duas. "Se decidir inventar, não há mais ninguém para me corrigir" - escreve Sylvia.

Como dar significado a uma pessoa que requer atenção, pois "ainda está" (diz a dedicatória), mas já não "é"? Para apreender com objetividade o comportamento da enferma, a visita a observa e recorda. M.L. tinha horror ao tempero de alho e de cebola. Também não se servia de carne. Estranha Sylvia: M. L. leva à boca uma colher de sopa de cebola e, mais tarde, um pedaço de carne. As desmemórias da enferma são relatadas pela falta de subconversa entre ela e os alimentos: "Ela já não sabe o que come, come de tudo". Quando tem de mastigar a comida, esquece: engole pedaços inteiros de bife. Mastiga por horas o iogurte. Apenada, Sylvia constata que M. L. tinha perdido a aversão por certos alimentos e os prazeres (gustos) do corpo. Só a narradora poderia restaurar como arqueóloga a subconversa entre M. L. e a comida. A perda do paladar - e dos prazeres do corpo - é homóloga da perda da memória.

Nas relações humanas, a perda da memória se recobre por frases de cortesia a que a enferma recorre, como se as boas maneiras pudessem suprir a desrazão. A enferma diz à enfermeira em espanhol: "Estás muy linda, te veo muy bien de cara". É a primeira vez que vê a enfermeira, que, por seu turno, não fala espanhol. A visita traduz a frase para a enfermeira, que cai de amores pela enferma. Também homóloga da perda da memória é a perda do nome. Ao ser internada no hospital, perguntam a M. L. seu nome, responde "Petra". Boas maneiras não são privilégio da enferma. Uma das amigas que a acompanha vê na resposta surpreendente o indício de que ainda é capaz de ironia. Pensa a narradora: "Se houve ironia, e não apenas o desejo de julgá-la capaz de ironia, trata-se de uma dessas ironias a que se há de qualificar de tristes". Perguntar pela boa saúde de M. L. é curiosidade hipócrita sobre a consciência que a enferma tem da desmemória.

M. L. recorda fragmentos de Aristófanes em grego, poemas de Rubén Darío. Sylvia pergunta-lhe sobre o que a leva a se lembrar dos versos. Responde que há neles palavras que ela julgava estranhas quando criança. "É perfeitamente razoável o que me diz", constata Sylvia. E pergunta a si: "Como pode ser essa a mesma pessoa que, logo em seguida e pela enésima vez, me pergunta se o dia está frio e se quero tomar o chá que acabamos de tomar?". M. L.nventa palavras. Numa das visitas, repete "jucujucu" e com os dedos conta as sílabas. Tem uma sílaba a menos, a do mindinho. Diz: que azar! Sylvia lhe aconselha acrescentar uma sílaba: "Jucujucu-ju". M. L. tenta de novo e dessa vez cada sílaba tem seu dedo. "Que sorte, diz, e sorri satisfeita." Sylvia entrou na doença e na sua retórica. Já nada lhe surpreende. Para que continuar a escrever Desarticulações?

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