Dentro da mente e sob o solo

Lançamento[br][br]Reconhecido pela crítica e pelo público dos EUA, John Wray, de 38 anos, fala sobre Afluentes do Rio Silencioso, romance que narra a saga de um garoto esquizofrênico pelos metrôs de Nova York

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Num vídeo que corre na internet, o escritor John Wray e o ator Zach Galifianakis (de Se Beber, Não Case) invertem papéis, e Wray, bancando o repórter, bombardeia o outro com perguntas repisadas como "Por onde você começou o romance?" e "Qual sua inspiração para criar a personagem Violet?". A cena foi pensada em 2009 para divulgar o terceiro livro de Wray, Lowboy, e acabou servindo à perfeição para uma situação que o autor americano passaria a viver com frequência desde então.

Elogiado pela crítica de seu país já no romance de estreia, The Right Hand of Sleep (2001), e eleito em 2007 um dos melhores jovens romancistas americanos pela prestigiosa revista inglesa Granta, Wray alcançou o interesse de um público amplo graças a Lowboy, lançado agora por aqui como Afluentes do Rio Silencioso. A história de William Heller, garoto esquizofrênico de 16 anos que escapa da clínica psiquiátrica e empreende uma saga pelo metrô de Nova York, tinha todos os ingredientes para firmar Wray como astro literário. Com linguagem e narrativa trabalhadas nos menores detalhes, mas também pensado de forma a não obscurecer a leitura, o romance recebeu críticas carregadas de elogios de veículos como a New Yorker e o New York Review of Books, ao mesmo tempo em que evidenciou o perfil pop do autor.

Aos 38 anos, visual criteriosamente blasé e enorme talento para aparições em vídeo, Wray passaria sem dificuldade por um músico de grupo indie (chegou, inclusive, a fazer parte de bandas, "mais por amor à música que por habilidade"). Nasceu John Henderson, mas passou a usar o sobrenome com que assina seus romances por influência de King Kong, o filme de 1933 - sua argumentação para isso envolve a atriz Fay Wray e o costume adolescente de pensar no gorila gigante carregando-o sempre que tinha preguiça de levar alguma tarefa a cabo.

Mas foi com os pés bem no chão que escreveu Afluentes do Rio Silencioso (o título em português, que mais parece nome de filme de arte japonês, foi uma alternativa por causa da impossibilidade de resumir numa palavra os dois sentidos de Lowboy, "garoto para baixo", deprimido, e "garoto de baixo", do subterrâneo). Enquanto seus romances anteriores partiam de abordagens históricas, este é centrado no tempo e no espaço do autor. "Escrever uma trama que se situa na cidade em que vivo, na vizinhança que conheço, tornou tudo mais atraente", afirma Wray por telefone ao Estado. Seu primeiro livro se passa na Áustria pré-2ª Guerra, e o segundo, Canaan"s Tongue (2005), é uma alegoria sobre o tráfico de escravos no Mississipi. Com a proximidade possível pelo tema de Lowboy, e mais para evitar distrações domésticas que por preciosidade criativa, o ficcionista escreveu boa parte do livro in loco, ou seja, no metrô nova-iorquino, com laptop no colo e fones de iPod nos ouvidos.

A iniciativa teve curiosos resultados antropológicos na percepção dos tipos subterrâneos e de detalhes do sistema de transporte. "Reparei que os pequenos círculos no papel de parede do vagão não eram só círculos, mas escudos do Estado de Nova York, minúsculos símbolos de autoridade repetidos, uma mina de ouro para um paranoico", avalia. Em outra circunstância, Wray notou que o arranjo dos bancos nos vagões não representava o uso mais eficiente de espaço.

Ocorreu-lhe que esses eram instalados de maneira que ninguém ficasse de costas para ninguém, e a impressão foi parar na mente do personagem. "Lowboy nunca conheceria os projetistas dessa planta, não teria chance de questioná-los", relata o romance, "mas podia aprender muita coisa só de olhar para o vagão. Podia concluir, por exemplo, que eram homens temerosos."

Escrever do ponto de vista de um paciente de esquizofrenia paranoide foi a motivação e também um desafio. Wray havia pensado em narrar a história na primeira pessoa, porém concluiu que isso poderia tornar o livro acessível "só a estudantes do último ano de literatura em universidades", uma espécie de versão contemporânea e estendida da primeira parte de O Som e a Fúria, de William Faulkner. "Recorri ao que chamamos, em inglês, de terceira pessoa próxima. Você está na terceira pessoa, mas quase dentro do pensamento dele", diz. Assim, manteve a intenção de apresentar as alucinações como se fossem realidade.

A experimentação com a linguagem, à qual chegou após estudar a fala e a escrita de esquizofrênicos, resultou em situações estranhas. "O homem deu um tapinha no assento ao lado. "O que você disse?". Lowboy olhou para o assento vazio. Acontecera de novo, ele concluiu. Tinha movido os lábios sem falar", escreve Wray numa das primeiras páginas. A certa altura do processo de redação do romance, o escritor decidiu intercalar o discurso alucinado do protagonista com a sanidade do investigador Ali Lateef e de Yda "Violet" Heller, a mãe de Lowboy. "Seria claustrofóbico deixar o leitor só na mente do garoto", argumenta.

Ao longo da trama, Lateef e Violet descobrem que o adolescente acredita num fim próximo do mundo, como resultado do aquecimento global, e em atitudes que deve tomar em questão de horas para impedir a fatalidade. A perseguição contra o tempo - o investigador receia que o rapaz possa ferir alguém, a mãe teme que o filho se machuque - teve inspiração real. Foi há alguns anos, quando Wray leu uma reportagem de um jornal australiano sobre um homem que havia escapado da internação. Em seu encalço, a polícia precisava localizá-lo antes que a medicação parasse de surtir efeito.

Metáfora. Mas a metáfora entre o subterrâneo e a mente perturbada, tão elogiada na imprensa estrangeira, não foi proposital. "Há uma tradição que remonta à Alice de Lewis Carroll e ao Inferno de Dante que liga o subterrâneo ao sonho ou à morte. Mas, quando se está escrevendo um romance, a não ser que seja muito esperto, você não pensa nisso com clareza."

Cinematográfico sem ter tido ainda direitos comprados para o cinema (Jim Jarmusch, entre outros, mostrou interesse), Lowboy tem também forte característica musical - fruto, acredita o autor, das horas que passou no metrô ouvindo jazz, faixas experimentais e heavy metal. O detetive do enredo tem o nome inspirado no jazzista Yusef Lateef, e outro personagem é apresentado como colega Ornette Coleman no passado. Atendendo a pedidos, Wray chegou a escrever, para a New York Times Magazine, um texto sobre as músicas que ouviu naquele período. Até gravou em MP3 faixas minimalistas que poderiam ser ouvidas durante a leitura do romance - mas estas, por enquanto, hesita em lançar.

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