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Danilo Christidis/Divulgação
Danilo Christidis/Divulgação

Densa aventura pelo universo de Dostoievski

Com ótimos intérpretes, O Idiota é adaptação estimulante

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2011 | 00h00

Poucas coisas aborrecem tanto os artistas de teatro ou cineastas quanto o espectador que cobra fidelidade a uma fonte de inspiração. Não é sem motivo, portanto, que a trupe que encena O Idiota tem o cuidado de intitular seu trabalho com um aposto destinado a prever as objeções: "Novela teatral a partir da obra de Dostoievski". Em parte, ficam resolvidos os possíveis cortejos entre livro e teatro.

Trata-se, seguindo a ordem do título, de uma novela. Empregada aqui na acepção contemporânea do termo, a palavra novela que não se refere à narrativa literária curta, mas à ficção televisiva dividida em capítulos apresentados diariamente. Outra expressão que antecipa descontentamentos: "A partir da obra de..."

Está implícita a afirmativa de que a obra-prima é tão singular que cada leitor tem a sua chave de leitura e interpretação. Não seria diferente com um grupo de criadores que, em um processo coletivo de construção, não deve se limitar a transpor um universo que, em si, não é literal. "É típico da obra de arte" - lembra-nos Umberto Eco - "pôr-se como nascente inexaurível de experiência que, tomando-a como foco, dela fazem emergir aspectos sempre novos". É um corolário da estética contemporânea identificar em cada leitura a produção de novos sentidos e, por consequência, é também uma tese até agora inabalável do teatro de hoje reconhecer a autonomia do espetáculo ao transpor o signo literário para a terceira dimensão do palco.

Tendo em vista esses direitos inalienáveis, a encenação dirigida por Cibele Forjaz tem ainda a obrigação de dirigir-se tanto aos leitores de Dostoievski quanto aos espectadores que nunca ouviram falar de literatura russa. Nos seus próprios termos, as peripécias do príncipe Michkin intencionam o suspense das narrativas seriadas em que o público aguarda com ansiedade a solução das intrigas que envolvem as personagens. Dostoievski tinha como exigência e modelo a escrita seriada para os folhetins publicados na imprensa. É justamente essa intenção folhetinesca o aspecto irrealizado pela narrativa teatral. Parece-nos agora que, por força do hábito, Cibele Forjaz orientou o espetáculo para o formato processional. Andam os episódios e anda o público atrás em uma perambulação exaustiva e muitas vezes desnecessária e o suspense, a ansiedade que deveria projetar-se sobre o destino dessas criaturas se dissolve na acomodação da plateia em um novo ambiente.

Entre as características do gênero novelesco, o espetáculo endossa com entusiasmo a quebra espacial entre os episódios. A viagem de trem da primeira cena, por exemplo, é caracterizada com economia e inteligência por atores-passageiros acomodados entre o público. Não parece necessário desacomodar a plateia e fazê-la caminhar em torno do prédio onde se aloja o espetáculo para entrar pela área de serviço na mansão dos parentes ricos.

Seriam suficientes os diálogos ou qualquer sugestão cenográfica para que se compreenda o trajeto entre os diferentes patamares da hierarquia social que o peregrino começa a empreender. Nesse e em outros casos, no decorrer do espetáculo o trânsito tem um efeito dispersivo que se agrava sob o impacto sensorial da cenografia. Cada mudança de localização tem um tratamento plástico e arquitetônico estimulante, às vezes com arranjos e objetos que parecem ter autonomia em relação ao espetáculo e as acomodações da sensibilidade aos diferentes ambientes faz esquecer as referências à ação e às personagens. Na verdade, são tão bonitos alguns dos espaços e arranjos de Laura Vinci que é preciso esforço para sintonizar outra vez a ação dramática.

Há enfim, muita distração em um espetáculo cujo núcleo tem densidade e inteligência suficientes para dispensar artifícios cênicos. Da leitura feita por esse grupo de criadores emerge como um valor a candura do peregrino inocente e seu embate involuntário com a complexidade da vida social em que amor e interesse se mesclam. Outras possibilidades mais ambíguas são descartadas, mas o fato é que essa perspectiva nítida é realizada sem nenhum traço de pieguice.

Desde o momento em que os intérpretes "envergam" as personagens, há um traço de distanciamento, às vezes de ironia, moldado pela voz, pelos gestos e acentuado pelos figurinos que não permite confundir a pureza do protagonista com a caricatura de bondade dos melodramas. Uma história recontada por excelentes intérpretes perfeitamente orquestrados pela direção, com um significado alvar e, ao mesmo tempo, com minúcias que só são possíveis quando há uma convivência intelectual profunda com a história tem o direito de requisitar a imaginação do público. Não precisa arrastá-lo nem maravilhá-lo com as novas versões da maquinária barroca.

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