Denise Stoklos encena poema de Gertrude Stein

Denise Stoklos estréia amanhã um novo espetáculo. Pela primeira vez, ela escolheu o Rio para mostrar seu trabalho mais recente. Calendário da Pedra é baseado num poema da norte-americana Gertrude Stein, Book of Aniversary, e ficará em cartaz em um teatro de público bem particular: o Sesc Rioarte, que já foi cinema chique e, no ano passado, foi reinaugurado como centro cultural. Atualmente é mais freqüentado por um público de terceira idade, na maioria moradores das redondezas, o bairro de Copacabana.O espetáculo fica no Rio até o dia 22, sempre de quinta a sábado, e depois viaja pelo País. "Vai ser muito interessante me apresentar para esse público. Meus espetáculos exigem interação com a platéia, mas quem vai só para se divertir tem momentos agradáveis com o que está na superfície", comenta Denise.Também pela primeira vez, ela divide a criação com outra pessoa, a estudante de teatro Antonia Ratto, que assina a assistência de direção e dramaturgia. A filha de Denise, Thais Stoklos Kignel, assina a cenografia e as fotos do espetáculo, que fala sobre o tempo."Estou com 50 anos e, no ano passado, me liguei em pessoas da terceira idade, como o geógrafo Milton Santos, que morreu no mês passado, e a escultora Louise Bourgeois, e construí esse espetáculo com gente que tem metade da minha idade", lembra Denise. "É muito bom estar no meio de jovens, porque eles vão levar adiante tudo o que nossa geração, que participou dos 68 da vida, lutou para realizar. Eles me trouxeram, por exemplo, a cantora Clara Nunes, que eu nunca tinha ouvido e me foi apresentada pela Antonia, que era criança quando Clara fez sucesso."Como sempre, Denise adianta pouco sobre seu novo espetáculo e quem conhece seu trabalho sabe que terá surpresas. Ela recusou-se a traduzir para o português as palavras escritas por Gertrude Stein, a quem considera uma precursora de James Joyce, no que diz respeito ao uso da palavra. "Há uma aparente repetição em seu poema, na verdade uma reiteração, com intenção de mostrar o desenrolar constante do tempo. A poesia está na ordem das palavras e no sentido do conjunto", explica Denise. "Procurei traduzir em gestos e emoções o seu poema que é anterior ao Ulisses, de Joyce, mas não recebeu a mesma atenção por ter sido escrito por uma mulher. Assim é."O cenário não prende a personagem vivida por Denise no tempo ou no espaço, pois são exatemente esses os conceitos discutidos no espetáculo. Ela aprofunda o que chama de teatro essencial, que usa um mínimo de elementos cênicos e explora ao máximo o corpo e a voz do ator - há muito tempo seu trabalho transbordou a fronteira da mímica. "Este foi o meu começo, mas parti para sua desconstrução a fim de não reproduzir a realidade mas exteriorizar as emoções", adianta ela. "Não estou interessada num teatro de ficção, em que o espectador decifra um personagem e sim no convite energético em que o público encontra a si mesmo. O texto é um trilho para essa viagem."Reação da platéia - Como Denise Stoklos se recusa a repetir esquemas, ela assegura que "as chances de errar são sempre 100%" e que seus espetáculos são finalizados após a estréia, de acordo com as respostas que recebe do público. "Leva uns meses para ficar pronto. Depois, atinge a maturidade, entra para o meu repertório e passo a apresentá-lo em festivais no Brasil e no exterior", lembra. "Como dependo da reação da platéia, não chego com o trabalho terminado."O que não significa que seja improvisado. Calendário da Pedra, por exemplo, vem sendo pensado há oito anos e elaborado há um. "Para mim, é de lei não repetir um esquema que deu certo antes. Parto de uma estrutura e vou desconstruindo até chegar no cerne do que estou buscando", diz ela. "Aí há várias camadas de percepção. Quem quiser pode ficar só no clownesco, mas há quem prefira descer a outras camadas."Além de seu público cativo, Denise tem sido objeto de estudos teóricos que tentam destrinchar seus métodos e mensagens. Ela é tema de teses e ensaios em universidades e revistas especializadas no Brasil e no exterior e, geralmente, não opina sobre o que escrevem. "A não ser quando há erros factuais, pois considero esses textos autorais", ressalta. O interessante nessas teses é que há um consenso sobre o que ela quer dizer com seu trabalho. "Falo sempre sobre a natureza humana e, por isso, independentemente de onde é a apresentação, no inteior do Brasil, em Nova York ou na Noruega, a comunicação é a mesma."

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