"Democracia depende da educação", diz Mesquita

A política de abertura iniciada no final de 1933, observa o neto editor Ruy Mesquita Filho, organizador do livro Cartas do Exílio, permitiu a volta de Júlio de Mesquita Filho e de sua família ao Brasil, mas por pouco tempo. No mesmo dia do golpe do Estado Novo, 10 de novembro de 1937, ele foi preso. Foi a primeira de uma série de 17 prisões sucessivas até embarcar, em companhia de correligionários e seu cunhado Armando, para o exílio seguinte, em 10 de novembro de 1938. Foi para a França, de onde partiu às vésperas da eclosão da 2.ª Guerra Mundial passando pelos Estados Unidos, de onde segue, pelo Oceano Pacifico, rumo à Argentina, e só retornando ao Brasil em 1943, quando, sem condições financeiras de manter-se no exterior, volta de trem desde Buenos Aires até São Paulo, onde, logo depois, é novamente preso e finalmente confinado na fazenda da família, em Louveira, até a queda do ditador, em 1945.O editor do livro manteve a ordem cronológica das cartas. Numa delas, enviada de Nova York, ele diz à esposa Marina, em tom confessional, que os Rembrandts que viu em sua ?peregrinação forçada? pela Europa estão mais próximos de sua natureza ?sombria e tristonha? que os pintores italianos. Nova York, diz, causou-lhe fortíssima impressão pelas dimensões dos arranha-céus. Ele elogia a arquitetura ?harmoniosa? pós-Bauhaus, mas critica os exageros da moda que as mulheres usam e de que são vítimas, apresentando, muitas vezes, ?um aspecto clownesco?.Dona Marina não se furta a comentários igualmente irônicos sobre novos ricos paulistanos. Reclama, às vezes, por ser obrigada a escrever longos relatórios da situação política do País quando tem de cuidar dos filhos e das finanças. ?Mulher de exilado vira Sevigné, sempre escrevendo?, diz numa carta datada de maio de 1939, em que fala do descontentamento dos militares com Vargas, acusando-o de tentar comprar os integralistas com a promessa de postos e embaixadas.EnsaiosAlém de um relatório detalhado da situação do País, os pedidos de Júlio de Mesquita Filho incluem dezenas de títulos de sua biblioteca que a esposa, pacientemente, recolhe e envia para o jornalista na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina (segundo o neto, ele esboçava, na época, as primeiras linhas de Ensaios Sul-Americanos, que seria publicado em 1956). Em muitas dessas cartas, Júlio de Mesquita Filho parece chegar ao limite de sua paciência com a ignorância alheia. Numa carta enviada de Buenos Aires, em 1941, ao saber da demissão de Adhemar de Barros e da nomeação de Fernando Costa como interventor de São Paulo, chama o primeiro de ?sacripanta mentecapto? e diz que nem em mil anos o Rio Grande se lavará da ignomínia de ter dado ao Brasil um político (Vargas) capaz de submeter São Paulo a essa ?inqualificável humilhação?.É uma das raras ocasiões em que adjetivos tão fortes são utilizados pelo jornalista. Mesmo com os adversários ideológicos o tratamento é sempre discreto, desde que intelectualmente respeitáveis. É o caso, por exemplo, de Victor Serge, íntimo colaborador de Lenin na Revolução Russa e vítima do expurgo de Stalin após participar de um congresso de intelectuais realizado em Paris, em 1937, de quem se torna grande amigo. O jornalista elogia sua ?inteligência, serenidade e retidão de caráter?. Outros exemplos são o escritor Jorge Amado e o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, ambos também comunistas. Hospedado durante um fim de semana na fazenda da família na sua famosa viagem ao Brasil, quando foi ciceroneado por Jorge Amado, em 1960, Sartre definiu seu anfitrião, ao mesmo tempo, como ?poeta? e ?reacionário? mas apesar disso como uma das melhores cabeças que encontrou na América do Sul.Missão no Jornal?Ele anteviu a derrocada do comunismo na Europa e a globalização?, observa o neto editor, que garante ter reunido no volume todos o documentos que permaneciam inéditos no arquivo do avô. A publicação das cartas foi escolhida para mostrar a diferença de como Júlio de Mesquita Filho encarava sua missão no jornal e a imprensa brasileira hoje: ?Não acredito em jornal sem alma, sem uma missão, sem valores, onde as pessoas são tratadas como máquinas, sem respeito (no tempo dele todo exilado, por exemplo, tinha emprego garantido, não importando o credo e sim o conteúdo, valores que não são levados em consideração hoje) e sem caráter?, justifica Ruy Mesquita Filho, referindo-se ao modo como o avô dirigia o Estado, acrescentando que num programa de televisão lhe fizeram a seguinte pergunta:O senhor está de acordo com a reforma da lei de imprensa fortalecendo-se a liberdade mas com responsabilidade e combatendo-se a licenciosidade que campeia em grande parte de nossa imprensa?E ele respondeu:- Não tenha dúvida nenhuma também. Sou tão objetivo na minha maneira de encarar o papel da imprensa que não hesito em atribuir-lhe boa parte das desgraças que têm desabado sobre nosso país, como em todo o mundo. Lembra-se do que foi o papel da imprensa francesa nos últimos anos da Terceira República quando ela estava toda a serviço da Alemanha? Hitler determinava os artigos que jornais como Le Temps, Le Petit Parisien, Le Matin, Le Journal, L?Illustration deviam publicar; como campanha preparatória para a invasão que pretendia levar a cabo contra a França. Digo mais. Sabe qual é meu juízo? É que quando a imprensa não é conduzida com dignidade necessária ela se transforma num mal muito mais profundo do que o comércio de tóxicos. Este é menos nocivo aos grupos sociais do que a imprensa quando ela é dirigida com capciosidade, com falta de sentimento de responsabilidade e como instrumento para satisfação dos instintos de quem a maneja e dos grupos que a dirigem. E continua Ruy: ?Isso não existe mais, virou um comércio.?Decio de Almeida Prado e Antonio Candido também dão testemunho, no apêndice do livro, da preocupação que Júlio de Mesquita Filho tinha com a cultura, ao encarregá-los da criação do Suplemento de Cultura. A democracia futura, já dizia numa carta há 66 anos, dependerá muito mais da educação e da solidariedade moral dos integrantes da nação do que dos partidos. Difícil não lhe dar razão .A compilação do texto foi feita por Ruy Mesquita Filho e a edição por Mary Lou Paris e Diana Mindlin. O patrocínio, pela Lei Rouanet, é do Banco Cacique, cujo presidente, Cesario Coimbra, é neto de um correligionário, também exilado em 1932, Cesario Coimbra, citado na obra por seu apelido, Zarico. Mais informações, no site da editora: www.terceironome.com.br ou pelo telefone (11) 5093-8216.

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