Democracia Corinthiana mudou carreira de Sócrates

Em depoimento, craque morto no ano passado afirma que período o definiu como pessoa e jogador.

BBC Brasil, BBC

26 de novembro de 2012 | 07h27

Magrão, Doutor, Calcanhar de Ouro ou apenas Sócrates. Nascido em Belém do Pará, em 1954, o jogador foi batizado com um nome longo tão longo quanto suas pernas: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.

Alto, com 1,91m de altura, e não exatamente veloz, Sócrates destoava dos demais craques brasileiros. Vem de uma família de classe média e teve formação universitária.

Começou atuando no Botafogo de Ribeirão Preto até ser transferido para o Corinthians em 1978 e se tornar um dos grandes nomes da história do futebol.

De acordo com o comentarista esportivo Juca Kfouri, Sócrates pode não ter sido o melhor jogador que o clube paulista e o Brasil tiveram, "mas certamente foi o mais único".

Médico por formação, Sócrates ficou famoso por sua habilidade em campo - com clássicos toques de calcanhar - e sua atuação política dentro e fora das quatro linhas.

"Ele tinha uma cabeça muito boa", elogia Zé Maria. "Com ele, a Democracia Corinthiana se tornou um momento muito especial para o esporte brasileiro. Nunca houve isso, de jogador se envolver assim com política".

Sócrates, contrariando os clichês, mostrava articular palavras e ações como poucos. Personalidade que foi revelando aos poucos.

Primeiro, ao doutrinar a voraz torcida corintiana. Sócrates repetia nas entrevistas que a Fiel precisava confiar no time e apoiar o ritmo da Democracia. E convenceu.

Craque político

Certa vez, depois de o time ter perdido uma partida e ter sido ilhado no vestiário, cercado por torcedores, Sócrates marcaria os gols da vitória na partida seguinte e não comemoraria, em protesto. A torcida parecia entender os recados, a relação mais tensa e comprometida.

Na final daquele campeonato paulista, o time entrou em campo com a faixa "Ganhar ou perder, mas com democracia". Ganhou, levando democracia e delírio à Fiel.

Em uma entrevista logo depois do segundo título, Sócrates diria que "o Corinthians provou que liberdade dá melhores condições de trabalho". Na Presidência do Brasil havia um general, João Figueiredo, conhecido por comandar a abertura política à base do "prendo e arrebento", como disse certa vez.

Mais adiante, em 1984, Sócrates se envolveria de corpo e alma na campanha Diretas Já. Subiria ao palanque montado no Centro de São Paulo para discursar diante de um milhão de pessoas.

"Se a emenda Dante de Oliveira for aprovada no Congresso, não vou deixar o nosso país", bradou ele diante da multidão em êxtase.

Dito em feito. Emenda rejeitada, Sócrates deixaria o Brasil rumo à Itália.

Mensagem na cabeça

Mais tarde, na Copa de 1986, Sócrates protagonizou outro momento inesquecível. Durante a execução dos hinos antes da partida entre Espanha e Brasil, estreia das equipes, organizadores executaram o Hino da Bandeira no lugar do Hino Nacional Brasileiro.

Sócrates, indignado, balançava a cabeça em frente às câmeras, reprovando o constrangimento. Ele conduziria os jogadores a deixar a posição perfilada e a assumir a formação clássica para fotos.

Naquela Copa do Mundo, no México, em todos os jogos Sócrates entrava em campo com uma faixa na cabeça, chamando a atenção para graves situações sociais.

O filme Democracia em Preto-e-Branco relata uma fase essencial na carreira do jogador, em que sua persona política se embrenhou em sua carreira como atleta, e vice-versa. No longa-metragem, Sócrates admite que o período compreendido entre 1981 e 1985 moldou seu caráter como esportista e cidadão.

"Sem dúvida alguma foi o período mais rico que vivi, que proporcionou tudo que sou hoje enquanto ser humano, enquanto ativista, enquanto qualquer coisa que seja. Aprendi tudo ali", diz.

Sócrates disputou 297 jogos, marcou 172 gols e venceu três Campeonatos Paulistas (1979, 1982 e 1983) com a camisa do Timão. Escreveu também peças de teatro, gravou três discos com composições próprias e ainda fez parte da administração de um cinema em Ribeirão Preto que exibia filmes gratuitamente.

O ex-jogador morreu aos 57 anos de idade, em 4 de dezembro de 2011. No dia seguinte, o Corinthians venceria seu quinto Campeonato Brasileiro.

"O Corinthians é um clube diferente hoje. Saiu de uma situação ditatorial, com o Vicente Matheus, e depois da Democracia Corinthiana evoluiu para ser uma nação, na qual o Sócrates foi uma figura central. O resultado apareceu depois, com as conquistas nacionais", avalia o ex-jogador e técnico do time alvinegro Zé Maria. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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