Delírios e ideologias

Semana passada, o extremista norueguês Anders Breivik, que em julho de 2011 praticou dois atentados sucessivos nos quais matou 77 pessoas e feriu outras 242, foi considerado "legalmente são" pela corte de Oslo e, como tal, condenado à pena máxima daquele país - confinamento por 21 anos.

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2012 | 03h11

A pergunta que imediatamente ocorre a qualquer um é - como se pode afirmar que não é louco alguém que comete um ato como esse?

A dúvida atinge não apenas o público leigo, pois mesmo os especialistas discordaram quanto ao diagnóstico de Breivik. Em novembro de 2011, um grupo de peritos o considerou como um caso de esquizofrenia paranoide. Mais recentemente, outro grupo afirmou que, mesmo tendo diversos transtornos e sintomas, Breivik não é um psicótico, sendo capaz de avaliar as consequências de seus próprios atos, opinião que prevaleceu no julgamento.

Para entender a discordância entre os peritos, imaginemos duas situações. A primeira mostra Breivik tomado pela ideia de que determinadas pessoas são clones de seres humanos controlados por alienígenas, que os usam como espiões visando à futura invasão de nosso planeta. Convencido de que a Terra pode ser destruída pelos extraterrestres, Breivik se sente na obrigação de lutar contra essa ameaça e mata seus agentes. Na segunda, acreditando que a Noruega corre o perigo de perder sua identidade nacional ameaçada pelo multiculturalismo, política alimentada por marxistas que não se importam com o crescimento da "Eurábia" (termo pelo qual radicais de direita se referem a uma temida islãmização da Europa), Breivik executa uma ação "cruel, mas necessária", para alertar a todos sobre o perigo e convocar os tíbios à luta.

Observa-se que a estrutura das duas ideias é semelhante. Há um suposto perigo a ser combatido e a disposição para exercer a punição e eventual eliminação dos que o provocaram. Mas há uma diferença importante. No primeiro caso, configura-se um delírio - um sistema de crenças não compartilhadas coletivamente e que se afastam do que é considerado como realidade. Nessa hipótese, Breivik não poderia ser legalmente responsabilizado por seus atos. No segundo, Breivik apresenta convicções ideológicas - sistemas de crenças que, correspondendo ou não à realidade, são compartilhados por uma considerável parcela da população da Noruega e da Europa. Dessa maneira, suas ideias não são consideradas delirantes e ele é responsabilizado pelos atos delas decorrentes.

Por serem sistemas de crenças, delírios e ideologias não são de fácil discriminação. Algumas crenças delirantes logo evidenciam uma distância frente à realidade e o senso comum, o que nem sempre ocorre com as crenças ideológicas. Não poucas vezes elas se mostram tão fantasiosas e imaginárias quanto os delírios e só não são reconhecidas como tal por serem amplamente compartilhadas pelo grupo social, como ilustram as ideologias políticas e religiosas.

A realidade se impõe brutalmente através da morte, da doença, das grandes catástrofes, do acaso - acontecimentos impossíveis de serem negados. Mas quando transcorre suave e corriqueira no dia a dia, a realidade pode ser negada, o que fazemos regularmente e com variada intensidade, pois a envolvemos com crenças delirantes ou ideológicas, com o objetivo de melhor satisfazer nossos desejos conscientes e inconscientes, refutando tudo aquilo que nela a eles se opõe. Por isso, o recurso de aferir a veracidade dos delírios e ideologias contrastando-os com a realidade, à qual supostamente se referem, nem sempre é confiável. É difícil usar a realidade como padrão de objetividade e verdade, pois só a vemos de forma distorcida, através das lentes de nossos desejos.

As ideias que comandaram os atos de Breivik - a islãmofobia, o racismo, o preconceito - não foram consideradas loucas por serem socialmente compartilhadas. Mas persiste a dúvida. Tal ideologia é "normal" ou é, de fato, um delírio socialmente compartilhado, tal como o foi a ideologia nazista para o povo alemão?

Transcendendo a decisão jurídica sobre a imputação e a sentença, um caso como o de Breivik levanta uma questão maior sobre o assassinato: é "normal" um homem matar seu semelhante, ou este é sempre um ato "louco"?

Para vivermos em comum, temos de abrir mão de nosso narcisismo primordial, que nos faz crer na onipotência e na completude. É um longo caminho a ser trilhado para que se chegue a aceitar as limitações, as incapacidades, a inveja do outro, a necessidade de conter os desejos agressivos e eróticos em prol do bem de todos. Afastadas todas as racionalizações, em última instância, o assassinato decorre da persistência do narcisismo mais primitivo, da intolerância frente ao outro que, pelo simples fato de existir, impõe restrições a minhas pretensões de tudo ser, ter e poder, e que, por isso, tem de ser eliminado. Por isso, psicanaliticamente, o assassinato será sempre um ato louco, insano, psicótico, a não ser quando exercido em legítima defesa - importante e inevitável exceção.

Individual, em massa, punido pela lei ou por ela exigido (contra o "inimigo") durante as guerras, o assassinato é a evidência mais extremada da agressividade e destrutividade inerentes ao ser humano. Frente a elas, só nos resta tentar domá-las, contrabalançá-las com as pulsões de vida, com a criatividade, com Eros. É imprescindível abandonarmos a fórmula projetiva "eu sou bom, ele é mau" e adotarmos outra mais realista e integradora - "a maldade, a agressão e a destrutividade estão dentro de cada um de nós, devemos controlá-las e neutralizá-las com as forças construtivas das quais também dispomos".

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