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Delinquentes fesceninos

Molecagem de antigamente: alterar o título do filme na fachada, para apimentá-lo

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 02h00

Também entre os cinemas, há aqueles que, depois de velhos, se convertem à religião. Faz sentido. A amplidão da sala se presta à maravilha ao propósito de arrebanhar fiéis. Com palco e poltronas, o pasto espiritual ali está, prontinho, a dispensar grandes investimentos dos empresários da fé. Saem os Irmãos Lumière e entram os irmãos, simplesmente. Mas será que não há, na conversão de cinema em templo, um ingrediente extraimobiliário? Uma determinação até divina, quem sabe, de exorcizar os demônios da concupiscência, responsáveis pela fartura de pecados cometidos naquele escurinho propiciatório - na tela, onde por vezes passam indecências, e sobretudo na plateia, onde nem seria necessária a ficção para inspirar a fricção lasciva de casais arfantes.

Quem nunca viu este filme? Um belo dia, ou melhor, um péssimo dia, o letreiro se apaga e, com ele, o velho cinema. O enredo já rendeu filmes, exatamente - está se lembrando, por exemplo, de A Última Sessão de Cinema? Se bem que no clássico de Peter Bogdanovich, de 1971, o Cine Royal não vira igreja, nem mesmo estacionamento, como também costuma acontecer: apenas acaba, por falta de plateia na ínfima Anarene, Texas.

Qualquer que seja a causa mortis, estamos falando dessa instituição que em toda parte se vai extinguindo, o cinema de rua, desbancada pelo cinema de shopping. Na hipótese menos melancólica, pode uma sala mudar de ramo, mas não de rumo, mantendo-se ligada ao universo do entretenimento e da arte. Mas é raro. Não sei de outro cinema que tenha, como o paulistano Astor, se convertido em livraria, a Cultura, onde, no mesmo plano inclinado, as poltronas cederam lugar a estantes e pontos de leitura. Que me perdoem os pentecostais e os donos de estacionamento, mas salas de cinema, quando desativadas, decaem.

A enésima reprise do assunto vem ao fato de que acaba de completar 70 anos, em Belo Horizonte, o cinema onde vi passar boa parte de minha infância, adolescência e primeira mocidade. O predinho art déco do Pathé lá está, protegido por tombamento, na região que hoje se chama Savassi (na época, este era o nome de uma padaria quase em frente), mas sua última sessão terminou há quase 20 anos. Faltou entre os belo-horizontinos o mesmo ardoroso empenho que em São Paulo assegurou a sobrevivência do Belas Artes. Desde então o ventre oco do Pathé abrigou igreja, feira de roupas, estacionamento. Nada disso vingou, como também não andaram uns projetos para ressuscitar o que, na capital mineira, mais se pareceu com um cinema de arte.

Não são apenas cinematográficas as minhas lembranças do Pathé. Algumas, devo confessar, beiram o crime e a contravenção, e chega a ser espantoso que eu nunca tenha sido apanhado, de madrugada, com a boca na botija - mais exatamente, com a mão nas letras de madeira que compunham o título do filme na fachada.

Com o destemor de adolescentes quando em grupo, numa disputa para ver quem apronta mais, eu e alguns comparsas galgávamos a grade que fechava o hall do Pathé, e cada qual furtava uma letra, com o propósito de presentear a namorada, ou namorada alguma, com a inicial de seu nome. O fundo de meu guarda-roupa escondeu por um bom tempo um estoque de letras, farto o bastante para a hipótese de vir a namorar representantes do alfabeto inteiro.

Se nunca passei disso, havia uns porra-loucas (adjetivo e substantivo então de largo uso) dados a reescrever os títulos na fachada do Pathé. Primeiro, postavam-se no outro lado da avenida Cristóvão Colombo, e dali ficavam a matutar o que se poderia compor com as letras do filme. Em seguida, passavam aos atos. As letras sobrantes eram deixadas sobre a marquise do cinema.

Alguns dos gaiatos voltavam, na manhã seguinte, para saborear, a prudente distância, as gargalhadas de alguns passantes e os queixos caídos da Tradicional Família Mineira. Em qual dos times se incluiria o mais ilustre dos moradores da região, o Dr. Tancredo Neves, dono de uma casa em estilo normando na Praça Diogo Vasconcelos?

Lamento não ter tido a ideia de anotar todas as barbaridades que li na fachada do Pathé. Lembro-me de dois arranjos. Um deles, dos menos trabalhosos, fez As Pupilas do Senhor Reitor resultar em As Putas do Senhor Rei. O outro? Ainda me pergunto como se chama o filme que permitiu a um gaiato convertê-lo em Rola na Garota.

Consultado, o cinéfilo Sérgio Augusto me conta que sua participação em estripulias desse tipo, no Rio de Janeiro, se limitava a mexer nos títulos - abundantes na década de 50, com direito a farta reprise na seguinte - em que entrasse a palavra “céu”, da qual se eliminava uma das vogais. “Éramos uns delinquentes fesceninos, meu destino era mesmo o Pasquim...”, admite o Sérgio Augusto. “Imagine o estupor das senhoras indo às compras de manhã e dando de cara, nas marquises, com títulos de filmes que originalmente se chamavam Céu de Agonia, Céu Amarelo, Sem Barreiras no Céu, E o Céu Mandou Alguém, Até o Céu Tem Limites, Entre o Céu e o Inferno e, talvez imbatível, Tudo Isso e o Céu Também...”

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