Delícias pelo buraco da fechadura

Mesmo com a porta trancada, dava para ver que o Papai Noel tinha passado lá em casa

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2019 | 06h33

Como naquele dito sobre a festa, melhor ainda que o presente, muitas vezes, era esperar por ele.

Aproximando-se o Natal, a nossa mãe – pronome possessivo que chegou a abarcar 11 crias, número suficiente para formar um time feminino de basquete e um masculino de vôlei – se munia de lápis, papel e paciência para ouvir os mais delirantes, os mais inexequíveis desejos da meninada. 

A dona Wanda e o dr. Hugo com certeza tinham sua estratégia para, de modo indolor, nos convencer de que nem todas as nossas fantasias, quando não a maioria delas, estariam atendidas sob a árvore de Natal na manhã de 25 de dezembro. Provavelmente sabiam que também o inesperado pode ter o seu encanto, e lançavam mão de surpresas gostosas para prevenir eventuais decepções da filharada. O fato é que o expediente funcionava. Pelo menos não me lembro de ter sentido falta de alguma coisa ao desembrulhar o que o Papai Noel deixara para mim. 

A única exceção, já contada aqui, foi, bem menino ainda, um par de muletas, petrecho que, para mim, passava ao largo da ortopedia para se constituir num instrumento de prazer, tão fascinante quanto as pernas de pau sobre as quais eu via se equilibrarem uns malabaristas. Não me lembro do que terá vindo em lugar delas, de modo a compor um trio de regalos que incluía um par de óculos escuros e um anel de prata, com chapinha para gravação de iniciais, adornos em cujo uso & gozo fui flagrado numa foto aos 4 anos de idade.

Não me lembro, também, de ter pedido a Papai Noel o exemplar do Missal Cotidiano que, aos 10, encontrei aos pés da árvore, junto com o meu primeiro relógio, um Lanco dourado de 15 rubis, minúsculas gemas que, no interior da máquina, providenciavam o seu bom funcionamento, desde que o usuário não se esquecesse de dar corda uma vez ao dia. Meu Lanco parou irremediavelmente em algum ponto do caminho, mas o Missal Cotidiano (“editado e impresso nas oficinas tipográficas do Mosteiro de São Bento, Bahia”, em março de 1954) segue acompanhando o infiel que perdeu bem cedo a fé religiosa, mas que ainda assim o trata como relíquia, quando menos pela razão pagã de figurar, no topo da folha de rosto, o seu nome completo e a data do presente, “25-12-1955”, na bonita letra materna. Ao longo de décadas, mais de uma vez voltei a esse livrinho, e outras tantas voltarei, não para rezar, mas para, digamos, procurar nomes e datas na extensa lista de santos do dia.

Já não sei quando foi que algum espírito de porco me comunicou que “o Papai Noel é o pai da gente”. Da revelação não me ficou o menor trauma, diferentemente do que aconteceu quando alguém me fez saber que simplesmente não existia a cegonha que por 11 vezes pousara no lar de Hugo e Wanda – assim como, aliás, em igual número de ocasiões, na casa ao lado, moradia do tio João Antônio e da tia Yedda. Mesmo nas Minas Gerais daquele tempo, católicas a mais não poder, e sem televisão para ocupar os casais, bem poucos telhados terão sido tão assiduamente frequentados quanto aqueles dois pela referida ave pernalta da família dos ciconiídeos. 

Mal entrava dezembro e a nossa mãe exumava dos armários uma árvore natalina artificial, cujos galhos, dobrados junto ao caule no restante do ano, me sugeriam um guarda-chuva verde fechado. Junto com ela e as respectivas bolas coloridas, voltavam à luz algumas folhas de papel grosso que, depois de receberem uma camada de cola, haviam sido polvilhadas com um minério de ferro que, por brilhar ao sol, se chamava especularita. (Não se impressione com a exibição de ciência: dono de uma ignorância especializada também em geologia, recorri aqui às luzes de meu irmão Rodrigo, engenheiro de minas e metalurgia.) 

As folhas de papel eram manipuladas com mãos de artista para que compusessem, sobre uma mesinha baixa, uma réplica doméstica da gruta onde nasceu Jesus. Espelhos com as margens recobertas de areia simulavam laguinhos. Aqui e ali, nosso presépio era adornado com tufos de musgos que, tanto quanto a especularita, íamos colher nos contrafortes da Serra do Curral, hoje em grande parte tomados por uma urbanização voraz.

A paisagem era habitada por figuras de louça colorida de Nossa Senhora e São José, além de considerável fauna à qual não podia faltar uma literal vaca de presépio. Vindos de longe, os três Reis Magos a cada dia avançavam alguns milímetros em direção à gruta, com suas oferendas de ouro, incenso e mirra, palavra esta que me fez correr ao dicionário. O berço de Jesus permanecia vazio até os primeiros minutos de 25 de dezembro; mas nós, a arraia miúda, não víamos o momento em que o recém-nascido era ali gloriosamente entronizado, com seus bracinhos abertos para nos abençoar. Sua chegada se dava altas horas da noite, quando papai & mamãe Noel, pé ante pé, vinham depositar sob a árvore os nossos presentes.

Quando acordávamos, bem mais cedo que o habitual, encontrávamos trancadas as portas da sala, e havia alguma disputa para ser o primeiro a colar o olho no buraco da fechadura, no mais inocente dos voyeurismos. Como não dava para saber quem ganhara o que, a nossa impaciência ia acordar os pais, no quarto ao lado. Num daqueles Natais, houve a surpresa de verificar que as pilhas de presentes não estavam, como de hábito, no piso da sala, e sim no assento do vasto sofá ao fundo. Depois soubemos que uma chuvarada noturna tinha apanhado de jeito uma janela mal vedada e provocado uma inundação no soalho. Mas nenhum presente se molhou – motivo adicional para a nossa já enorme admiração pelo Papai Noel: cuidava de tudo, o danado!

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