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Humberto Werneck
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Delícia em dobro

Foram anos ouvindo falar de Paradiso - e nada de Paradiso chegar. Houve quem não aguentasse esperar e mergulhasse nas 490 páginas de uma bela edição mexicana que circulou aqui no final dos anos 1960. Para a maioria dos leitores brasileiros, no entanto, o romance do cubano José Lezama Lima (1910-1976) foi por longo tempo - desde o seu lançamento em Havana, em 1966 - apenas a notícia de um dos mais imponentes monumentos que a língua espanhola produziu no século 20. Algo comparável, em ambição e estatura, ao Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2014 | 02h04

No final da década de 1980, finalmente, lá estava Paradiso em nossas livrarias, numa competente tradução de Josely Vianna Baptista para a então vicejante editora Brasiliense, do Caio Graco Prado. Você acha que a tradutora se deu por satisfeita com os elogios que seu trabalho suscitou? Nada disso. Perfeccionista, Josely voltaria ao original e, muito mais do que retocar a tradução, decidiu partir outra vez do zero.

O fruto da empreitada saiu neste ano, pela Estação Liberdade - curiosamente, no mesmo momento em que a Martins Fontes também lançava uma tradução de Paradiso, por Olga Savary. Um lançamento deve ter atrapalhado o outro, mas não sou eu quem vai reclamar. Luxos de um país emergente em que o leitor tem à disposição nada menos de três traduções do Ulysses de James Joyce. Por que não duas de Paradiso?

Frequentador do romance de Lezama desde os anos 1960, quando crepitava no Brasil o cacofônico boom da literatura hispano-americana, dei agora uma boa lambiscada nas recentes traduções - e, sem desfazer da performance de Olga Savary, achei melhor a refazenda de Josely Vianna Baptista. Recomendo correr à livraria. Vamos combinar: se você não gostar do romance, eu reembolso - e rompemos relações...

Mas não se trata, é bom ir avisando, de leitura digestiva, desdobrável nos vagares de um fim de semana. Também não é desses tarugos do tipo chato-mas-importante, cujo desbravamento constitui autêntica maratona que arrematamos com um suspiro de alívio, jamais com um orgasmo estético. Em sua prosa espessa, barroca, cheia de meandros, Paradiso é uma exigente delícia. "Este não é um livro para ser lido como se leem os livros", advertiu Julio Cortázar, que ajudou a revisar a primeira edição do romance. "É um objeto com anverso e reverso, peso e densidade, cheiro e gosto, um centro de vibração que não se deixa alcançar em sua porção mais entranhada se não se vai a ele com algo que participe do tato, que procure a entrada por osmose e magia."

História da formação de um jovem cubano, José Cemí, da infância ao final da adolescência, Paradiso é também, de certo modo, autobiografia de Lezama Lima - um havanês enorme, gordíssimo, sempre com um charuto entre os dedos, que só por duas vezes saiu de seu país e que, mesmo sem ter sido um dissidente explícito, a revolução teve dificuldade em assimilar. Tolerar talvez seja o verbo.

Católico, erudito, afeito a longas digressões sobre temas que em Cuba ainda hoje soam incomodativos, como a homossexualidade, a obra de Lezama foi ali por muito tempo estigmatizada como "evasionista". Se você viu o filme que se fez a partir de Antes Que Anoiteça, de Reinaldo Arenas, deve se lembrar do escritor maduro que acolhe em sua biblioteca o jovem aspirante às letras encarnado em Javier Bardem, ao qual empresta livros e prodigaliza conselhos.

A crer nas maliciosas inconfidências de Guillermo Cabrera Infante em Mea Cuba, Lezama vivia cercado de rapazes lânguidos, não necessariamente interessados em literatura, não se sabendo - agora digo eu - em que medida ele, em que terreno fosse, os encaminhava ou desencaminhava. Em matéria de preferências eróticas, conta Cabrera, Lezama era o oposto do colega Virgilio Piñera, magrelo e pobre, tão chegado a um tipo popular, a uma baixa renda, que certa vez expulsou de sua cama um parceiro que contou ter lido um livro. Os verdadeiros homens não leem livros!, teria espinafrado Piñera.

José Lezama Lima não quis briga com os patrulheiros da literatura. "Se a revolução é poderosa, pode assimilar tudo, inclusive Paradiso", limitou-se a dizer aos que o condenavam - muitos dos quais se orgulham hoje ao vê-lo incluído na galeria dos maiores escritores cubanos de todos os tempos.

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