Delicadeza que vem do lixo

Estamira se inspira no documentário homônimo sobre moradora de lixão

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h10

Era uma aposta de risco. Quando decidiu transpor para o palco o argumento do documentário Estamira, a atriz Dani Barros estava consciente dos perigos que corria. "Assisti ao filme dezenas de vezes. Estudava os trechos. Cada gesto, cada palavra. Mas aquilo já estava feito. Não fazia sentido nenhum reproduzi-lo", conta ela, que mereceu o Prêmio Shell por sua atuação.

De fato, não se pode dizer que seja uma cópia do documentário o que chega hoje ao Sesc Pompeia. Para compor o monólogo Estamira - Beira do Mundo, a intérprete extrapolou os limites do cinema. Primeiro, foi atrás de sua personagem. Visitou e conversou com a verdadeira Estamira, uma catadora de lixo que trabalhava em um aterro sanitário do Rio de Janeiro. A aproximação se estendeu até a morte dela, aos 70 anos, em 2011.

Outro passo nessa construção foi a decisão de articular ao enredo elementos de sua própria biografia. "Encontrei ali algo que eu queria dizer", diz. "Vi aí a possibilidade de juntar duas coisas: o meu encantamento com Estamira e a minha história familiar."

Assim como Estamira, a mãe da atriz também sofria de distúrbios psíquicos. Vítima de depressão, passou por várias internações. E padeceu com uma infinidade de tratamentos e medicações que, não raro, mostraram-se inócuos. "A loucura é um assunto com o qual não sabemos lidar", acredita.

Dirigida por Beatriz Sayad, Dani sublima o passado penoso costurando elementos dos dois universos. Fala por si e pela personagem que encarna. Toma ainda emprestados textos de outros autores, como os poetas Manoel de Barros e Ana Cristina César.

Com um discurso messiânico, Estamira acreditava-se detentora de uma verdade a ser revelada. Invocava o além, o inexplicável. Empunhava uma oratória raivosa contra os equívocos da ciência, desmontava seus supostos axiomas. Atacava a sociedade de controle, a religião e os poderes estabelecidos.

A peça, que já cumpriu temporada no Rio e esteve na grade do último Festival de Curitiba, costuma impressionar o público pela semelhança entre o desempenho da atriz e a Estamira da vida real. Entre sacos plásticos, que evocam o ambiente de um lixão, ela reproduz com veracidade gestos, vozes e inflexões da personagem. "Existe uma parcela do trabalho que é realmente de imitação. Sou boa com isso", admite ela, que atuou durante muito tempo como palhaça no projeto Doutores da Alegria.

A mimese é, de fato, comovente. Ela coloca no corpo, e não apenas nas palavras, a força e o espanto de Estamira. Mas não seria incorreto dizer que a montagem se sustenta, sobretudo, por outro dado.

Sua qualidade maior é escapar do virtuosismo. A maneira como a encenação mostra-se capaz de abrir espaços para que o espectador vislumbre a intérprete para além de sua personagem.

É no trânsito entre as duas vozes - a sua própria e a de Estamira - que a Dani Barros marca sua diferença em relação às atuações que acompanhamos em outros espetáculos biográficos. Em mínimas transições, ela passa de um lugar ao outro. Cria momentos em que as duas figuras aparecem sobrepostas.

Não há na peça a tentativa de se criar ilusões. Cenografia e iluminação cumprem uma função outra, que não essa. E a plateia conhece, desde o princípio, as regras do jogo que se estabelece em cena.

Esse conhecimento não advém de explicações didáticas. E elas não são necessárias. Só serviriam para macular a mágica zona enevoada em que a atriz ousa se colocar.

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