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Ignácio de Loyola Brandão
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Deixar-se possuir por Inhotim

Indispensável. Não, não é esta a palavra. Há uma outra. Será além da imaginação, como aquela série fantástica de televisão do Rod Serling? Vou encontrar a palavra. Quando saí daquele território único continuei por horas com aqueles sons que vieram do interior da terra. Tinha visto tanto, achei que não haveria nada que pudesse superar as imagens que estavam na cabeça, quando no alto de uma colina entrei num espaço circular envidraçado onde o silêncio é absoluto. Caminhar na ponta dos pés, não conversar, proibidas as fotos, não pela foto em si, mas para que o clique não ultrajasse a atmosfera, sequer mascar chicletes. Então, por alto-falantes invisíveis, os sons vieram até nós.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2014 | 02h08

Vieram lá de baixo por um estreito túnel de 20 centímetros de diâmetro cavado na terra; vieram de 202 metros de profundidade, onde estavam microfones ultrassensíveis. Chegavam abafados, mais fortes, intensos. Ora, parecia um riacho murmurante. Ouvi (imaginei?) vozes abafadas, estalidos, vibrações, rumores, um borbulhar suave, cicios, sussurros, sopros, cochichos, sussurros, estrondos, ressonâncias, ventos. Quem se lembra do vento nas escavações do metrô e corroendo em segundos afrescos milenares nas paredes no filme Roma, de Fellini? Foi um vento como aquele que ouvi. Difícil distinguir. Mistérios do fundo da terra, Júlio Verne, talvez Kubrick, o buraco por onde Alice mergulhou atrás do coelho. Vieram os buracos absolutamente redondos que os poceiros cavavam no quintais em minha infância araraquarense. Quatro dias depois, ainda tenho na cabeça os sons que o americano Doug Aiken traz à tona em seu Sonic Pavilion, em Inhotim. Se arte é aquilo que fica impregnado em nós, então Sound Pavilion, para mim, é arte. O que mexe, evoca, provoca. Ah. Talvez Rodrigo Naves, crítico e historiador de arte, poeta, cronista, discorde de mim. Ou concorde, o que seria maravilhoso.

Memorável será a palavra? Ainda não, mesmo que o seja. Inhotim. Uma experiência necessária. Ou vivência. Ainda que seja breve como a minha, como a do grupo que a Fiat, uma das parceiras, levou na semana passada. Pessoas de bom convívio e boas cabeças como Marina Colasanti, Marta Goes, Affonso Romano de Sant'Anna, Humberto Werneck (contador de histórias permanente, cada conversa é uma crônica), Nirlando Beirão, Juliana (seu site Radar 55 é ótimo) e Maria Julia Pinheiro Mota, Paulo Giovanni, CEO da Leo Burnett, Cristina, Marcia Gullo. Fomos conduzidos por Marco Lage e Raquel, Rogério Faria Tavares e Rubia Alvarenga, da Fiat, uma das parceiras de Inhotim, que nos levou para uma vivência breve, como disse, porém exuberante, imprescindível.

Indelével. Encontrei a palavra? Ainda não.

De Belo Horizonte, seguimos para a Estalagem do Mirante, distrito de Brumadinho, à nossa frente, montanhas recobertas por nuvens, me fizeram lembrar o conto de Hemingway, As Neves do Kilimanjaro. O jantar no La Victoria começou com lulas fritas com aiolí de alcaparra, involtini de berinjela, provoleta de orégano e costelinha de porco prima, fechando com filés de badejo ao mel e soja com manteiga de gengibre, ou nhoque de batatas com ragu e ossobuco ao filé mignon ao molho de cogumelos frescos e porcini. Preparamos o estômago para desembarcar em Inhotim, na manhã seguinte.

Assim como para finalizar, fomos para A Casa do Abraão, quase escondida, mas deliciosa, principalmente porque o Abraão prepara tudo à nossa frente. O parque, ou o museu, ou o recanto das delícias, ou um universos paralelo dentro de Minas, dentro do Brasil. Um museu ao ar livre. Você caminha e depara com muros coloridos ao ar livre, é a Invenção da Cor, de Hélio Oiticica, ao lado do qual um grupo de circenses se preparava para uma apresentação. Há coisas o tempo inteiro. Ou penetra no espaço que abriga Adriana Varejão com o seu Maremoto provoca celacanto (anos atrás, foi um célebre e enigmático grafite nos muros do Brasil). Diante de um lago azul, reside (acho melhor dizer assim, ele foi um dos incentivadores de Bernardo Paz, que criou tudo isto) Tunga.

Ele está em vários pavilhões e as exposições se sucedem. Circule a pé ou nos carrinhos especiais. Passem pelo Deam Drop, de Chris Burden. São 71 vigas de aço de 45 m cada uma, enterradas no concreto. Assombre-se com o Lama Lamina, de Mathew Barney, com o imenso veículo refletido em um milhão de imagens. Atravessem alamedas sombreadas ou ensolaradas, pensem que Riberto Burle Marx foi um dos iniciadores deste parque, que se espalha por 45 hectares. São mais de 4.500 espécies de plantas (e há Mata Atlântica). Há um restaurante de primeira, com vinhos e pratos elaborados, há o bar Ganso, uma galeria de arte, há dezenas de lanchonetes, já uma sortida cafeteria. Um dia será pouco. Indescritível será a palavra? Daí, na exiguidade desta crônica, a impossibilidade de refletir o encantamento.

Degustar, voltar, se deixar possuir. É isso, você precisa se deixar possuir por Inhotim. Que provoca a vontade de voltar. Entregue-se a esta obra utópica de Bernardo Paz, empresário, minerador, imerso na arte contemporânea, que um dia, depois de um AVC, decidiu viver e ser feliz e empregar dinheiro em sonho. Para também fazer os outros sonharem com a arte, o lúdico, o polêmico, a beleza, o questionamento. A interrogação, a paixão.

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